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Os filmes de faroeste fizeram muito sucesso, principalmente, na sua Era de Ouro, que teve duração de cerca de 20 anos, mais ou menos nas décadas de 30, 40 e  50. Mesmo que não esteja em alta, o gênero ainda tem filmes representantes sendo lançados. O mais novo é Ataque dos Cães (2021), da diretora Jane Campion, filme que subverte as características dos longas do gênero, sendo o principal deles o estereótipo do homem da época. O filme é adaptação do livro de Thomas Savage, lançado em 1967.

Em 1925, Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) e seu irmão George (Jesse Plemons) comandam juntas a fazenda de gado da família em Montana. Phil é um homem rude, muito respeitado por seus funcionários, leva sua rotina diária e os cuidados com a fazenda de forma rigorosa. Já George é um homem mais doce e sensível, que lida com a vida diária de forma mais leve. A vida dos dois muda radicalmente quando George se apaixona e resolve casar com Rose (Kirsten Dunst), uma viúva, que já possui inclusive um filho adolescente. Phil, completamente incomodado com a situação, resolve começar uma batalha silenciosa para mostrar que ali o poder é dele. 

Com doze indicações ao Oscar, incluindo de Melhor Filme, Ataque dos Cães vai surpreender muita gente, e por vários motivos. O filme de faroeste que, não traz a representação do faroeste que tivemos durante muito tempo no cinema norte-americano, com roteiros pautados em confrontos físicos e com muitas armas de fogo, vai apresentar um protagonista com questões de sua sexualidade reprimida e uma masculinidade tóxica. 

Benedict Cumberbatch atua com maestria no papel mais difícil de sua carreira. Phil é um homem que vai apresentar diversos comportamentos escrotos, como macho alfa do local, inclusive nem banho toma. Isso, para mim, deixou a imagem desse personagem o mais perfeita quanto vemos o outro lado dele. Em momentos em que ele está sozinho com suas lembranças, fica claro as questões reprimidas que o aumentam. Inclusive, há uma cena belíssima dele à beira de um lago, lembrando do passado. Quando jovem, ele teve um mentor, Bronco Henry, e foi ele que ensinou tudo que o Phil sabe. Mas o que ele conta e o modo como ele fala que deixam “claro” que os dois podem ter tido uma relação mais intensa. 

É fazendo relação com esse passado, que vou trazer o segundo personagem com destaque na trama, Peter (Kodi Smit-McPhee), o filho de Rose, o garoto é considerado afeminado por Phil e por seus funcionários. Ele parece não se importar com os ataques que sofre e segue a sua vida de uma maneira que inclusive incomoda Phil. A relação dos dois vai ser o ponto chave desse filme, pois além de ser uma forma de afronta, Peter vai despertar algo em Phil.

É assim que a história tem uma tensão elevada. É um sentimento estranho durante todo o filme, a ponto de me deixar em alerta esperando que algo de ruim acontecesse. Isso é muito incrível, pois o filme é lento, são duas horas e meia desse clima, e há muitos momentos nos quais nada acontece. Em cenas envolvendo Phil e Rose há uma energia tão pesada que parece real, chega a sufocar. O mais incrível foi saber que para que a interação deles fosse perfeita, eles não se falavam durante a filmagem do longa.

Kirsten Dunst também está perfeita, é através dela que conseguimos acompanhar a passagem de tempo, pois isso também não é muito claro no filme. Eu gostei muito dos diálogos dela com o filho. Além disso, o modo como ela reage a Phil é espetacular, o misto de tensão, confronto e luta por espaço fica evidente em todas as cenas. 

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Mas como ela vai ter questões com a bebida, eu consegui marcar o tempo assim. Jesse Plemons em seu papel não ganha muito destaque, mas o contraste com o comportamento do irmão é evidente. além disso ele dá um toque de leveza e delicadeza para a narrativa, que é tão tensa sempre que o protagonista aparece. Gostei muito dos momentos que ele compartilha com a Rose, inclusive ele é casado com a Kristen na vida real, acho que essa conexão ficou muito bonita no longa, pois os dois juntos é realmente ótimo dever. Os momentos em que ele se sente incomodado como irmão reforçam sua boa educação e sua preocupação ao tratar as pessoas, ele tenta não ser ofensivo, explicando para Phil a situação e tentando direcionar o irmão para algo que ele acha certo. Sendo assim, acho que mesmo que ele seja o personagem com menos foco na trama, sempre que ele aparece seu papel é de destaque e muito importante. 

O que falar da fotografia belíssima desse filme? Gravado na Nova Zelândia, a diretora faz um trabalho excepcional ao mesclar ângulos abertos e ângulos fechados. Os ângulos abertos são lindos e mostram os personagens no centro, como algo pequeno nesse imenso mundo. Contudo,  é nos ângulos fechados que temos os momentos mais importantes e de tanto significado para a narrativa. 

Ataque dos Cães com certeza não vai agradar todo mundo, mas é  evidente a qualidade do filme. A diretora não entrega as perguntas de forma fácil, mas deixa tudo subentendido. Temos que ler as cenas e os sinais para compreender a mensagem, mas de certa forma é tudo tão simples e claro, que se a diretora entregasse algo de bandeja estragaria a experiência que é assistir a esse filme. Para mim é o favorito ao Oscar!

  • The Power of the Dog
  • Lançamento: 2021
  • Com: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemons
  • Gênero: Faroeste, Drama
  • Direção: Jane Campion

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