Nunca fui muito fã de cinema oriental, mas admiro neles a capacidade de colocar no roteiro e na filmagem muito da sua cultura, mostrando suas principais características como país através daquela que é uma das mais belas artes, o cinema. E é isso que encontramos nas quase três horas de Drive My Car (no original Doraibu mai kā), o novo filme do cineasta Ryusuke Hamaguchi, responsável também por “Roda do Destino”, outro filme seu lançado no ano passado.

Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) é um ator e professor de teatro que guarda consigo um grande trauma ligado à morte de sua esposa, Oto (Reika Kirishima), que se foi de forma repentina, deixando em aberto diversas dúvidas que Yusuke tinha sobre o relacionamento dos dois, sem contar todo companheirismo que tinham entre si, fazendo deles grandes parceiros em diversas áreas de suas vidas.

O ator é convidado para encenar e dirigir uma peça de teatro longe de sua casa, durante a viagem, vai pensando em seus problemas, refletindo sobre sua vida e tudo que o cerca, bem como ao seu recente luto. Quando chega na cidade da peça precisa engolir que seus contratantes tenham contratado também uma motorista para ele, e não aceitam a dispensa dela como alternativa, Yusuke então, terá que aceitar uma mulher dirigindo o seu carro e, pior que isto, terá que dividir com ela todas reflexões que tinha dentro daquele ambiente só seu até aquele momento.

Vamos lá, o filme é genial! A ideia central faz com que os diálogos sejam a tônica do seu desenvolvimento, mostrando como diversas pessoas com diferenças podem se comunicar usando maneiras distintas, Yusuke precisará escolher os atores que irão encenar a peça ao seu lado e escolhe pessoas completamente opostas, dificultando ao máximo o diálogo e mostrando como isso pode funcionar perfeitamente, dependendo apenas da vontade de compreender e de se entregar que cada um irá ter.

Outro ponto fenomenal é como o papel do carro fica representado na história, sendo o ponto central e onde boa parte dos diálogos acontecem, incluindo os mais importantes, cheios de nuances e dizeres colocadas nas entrelinhas. O carro é o ponto de segurança do protagonista e assim como ele vai se reconhecendo, aprendendo sobre si, deixando de lado seus medos e se descobrindo após o luto, vai abrindo as portas de seu carro para outras pessoas, deixando elas participarem de sua vida e de suas viagens.

A fotografia do filme também é muito bem elaborada, com uma montagem de cenas perfeita e meticulosa (mais uma característica da cultura japonesa), com diversas tomadas onde o carro é o ponto central, literalmente, ficando bem no meio da tela enquanto a cena transcorre. Esse é um cuidado maravilhoso, me surpreende não ter o filme dentre os indicados desta categoria, mas acredito que seja devido alguns elementos não fluírem tão bem, já que um dos seus principais problemas para mim foi a desconexão entre o diálogo e as filmagens. Por vezes tendo longos momentos de uma mudez absoluta durante a viagem, o que também representa o momento pelo qual o personagem principal passava, mas que para quem assiste fica extremamente chato.

Drive My Car está indicado em quatro categorias para o prêmio, sendo uma delas a de Melhor Filme, que, bem… ele não vai ganhar. Porém, para Melhor Roteiro Adaptado, essa sim, ele mereça o prêmio. Drive My Car é uma adaptação do conto, de mesmo nome, do multi premiado escritor Haruki Murakami. Talvez ele não seja o melhor filme adaptado, mas pode sim ser a melhor adaptação de um conto, sua qualidade é inegável, mas tem problemas que roubam um pouco da sua qualidade e do prazer cinematográfico, mas ainda assim apresenta perfeitamente toda genialidade de Murakami, transportando das páginas para as telas do cinema, a ideia fantástica de um dos mestres da literatura contemporânea.

De forma geral, acho que o errado nesta análise sou eu, já que Murakami tem muitos fãs e prêmios e eu só esse meu preconceito bobo que segue me deixando dentro da zona de conforto literária e repleto de medos, como Yusuke, talvez eu precise entrar no meu carro e viajar pensando neles e em tudo que possa estar me prendendo a estas ideias, aliás, nada melhor que dirigir sozinho para refletir sobre a vida, pena que a gasolina está R$8,00.

  • Drive My Car
  • Lançamento: 2021
  • Com: Hidetoshi Nishijima, Toko Miura, Masaki Okada
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ryusuke Hamaguchi

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