Título Original: Em nome dos Pais
Autor: Matheus Leitão
Ano: 2017
Editora: Intrínseca
Páginas: 448
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Em nome dos Pais é o primeiro livro sob a autoria de Matheus Leitão, filho da renomada jornalista Miriam Leitão. Nele conta a história de tortura sofrida pelos seus pais, militantes do PCdoB do Espirito Santo na época da ditadura.

O autor e jornalista faz uma busca pelos principais personagens da história que envolveu seus familiares, vai atrás de parceiros de “guerrilha”, torturados e de suas famílias, com o intuito de encontrar respostas pelos anos de perseguição que seus pais viveram.

Em nenhum momento do livro há apologia ao comunismo ou um incentivo a essa ideologia, eu mesmo, sou contra o comunismo e não me senti ofendido ou forçado a virar adepto dele enquanto lia. A única ideologia da qual ele faz uma leve propaganda é da fé cristã, devido a um trabalho seu, que inclusive ele compara com o que o comunismo idealizava, de dar a pessoas menos favorecidas uma condição melhor. Em nome dos Pais conta com dezenas de documentos e arquivos da época, conseguidos pelo escritor e muito bem inseridos no livro, com uma contextualização e bela impressão, sem ser apenas “atirado” entre as páginas sem nexo algum, como vemos em muitos livros que trazem esse tipo de informações.

Quem sabe poderíamos ter algum dialogo sobre os dois lados da Guerra Fria brasileira?

A obra é claramente uma busca de explicações, além da homenagem aos dois principais personagens dele. Matheus vai em busca de pessoas importantes nas histórias que ouvia de seus pais durante toda sua criação, transcreve conversas com militantes da época, com ex-militares que participaram de forma direta ou indireta da prisão e/ou tortura sofrida pelos presos e chega até a encontrar familiares de militares já mortos, tudo em busca de uma resposta, de um pedido de desculpas e até mesmo de que estas pessoas assumam que o que foi feito na época do regime militar aos presos políticos, tenha sido um erro enorme e absurdamente abusivo.
Nos últimos capítulos do livro, Matheus Leitão narra sua busca pela família do principal torturador de seus pais, o capitão de codinome Guilherme, mostra toda sua saga atrás do contato com os familiares e encerra o livro de maneira emocionante, em um banco no parque Ibirapuera, em uma data especial. Ao final, o autor apresenta um capítulo inusitado, chamado de “Não Agradecimento”, que precede a página de “Agradecimentos” normalmente inserida nas obras, aonde fala dos empecilhos impostos, em sua maioria, pelo Exército Brasileiro, que dificultou ao máximo o seu acesso aos documentos que compõe o livro.

A estrutura do livro é muito boa, sua capa apresenta os documentos de seus pais quando presos, com as fotos e impressões digitais de ambos. Ele é dividido em três partes, a primeira conta a história da prisão e do sofrimento; a segunda trata de conversas com pessoas torturadas e parceiras deles e a última, é a busca por contato com torturadores e pessoas ligadas ao regime militar. As três partes se unem naturalmente e você não sente diferença entre elas ao ler, se não houvesse a separação não faria falta.

O fato de Foedes reconhecer que entregara Lincoln à morte era uma revelação importante para o resgate de um momento histórico do PCdoB. Pela primeira vez, o ex-líder capixaba reconhecia algo de que se suspeitava havia anos.

Em tempos de tantos problemas políticos, Em Nome dos Pais mostra, acima de tudo, que não precisamos ser comunistas ou de esquerda para não concordarmos com a maneira como a ditadura do Regime Militar foi imposta no passado do nosso país, e evidencia que não podemos deixar que isso retorne ao Brasil, que apesar dos nossos problemas com insegurança, corrupção e desigualdade social, ninguém merece ser brutalmente estuprada ou passar noites em celas solitárias com a companhia de uma jiboia.

Matheus Leitão faz a obra para homenagear seus pais, mas mostra ao Brasil que os absurdos do passado não podem ser esquecidos e que não precisamos nos converter a ideologias políticas para aprendermos a ser mais humanos e saber que tatuar a testa de um assaltante não irá resolver nossos problemas, por que mesmo que velada, a hipocrisia de torturarmos pessoas que erram não é a punição correta a elas.

Em Nome dos Pais, um belo livro, com histórias, bem escrito, cheio de dados e documentos importantes sobre uma parte importante do passado do nosso país. Se você procura explicações sobre nossa sociedade, sobre a evolução do Brasil, não pode deixar de ler esta grande obra.

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