Da mesma forma com que diversas de minhas resenhas não seguem o padrão ao qual estamos acostumados quando pensamos em textos redigidos com o intuito de expressar opiniões e comentários aprofundados com relação a uma obra literária, as palavras que escolho para compor o texto de apresentação da obra Livre para Voar podem não seguir o padrão das resenhas comumente produzidas por minha pessoa ou mesmo outros criadores de conteúdo voltado ao universo literário.

Como muitos, eu conhecia – ainda que superficialmente – o caso da garota paquistanesa que defendia o acesso à educação para todas as meninas de seu país. Do mesmo modo, deparei-me com informações equivocadas, bem fundamentadas e outras fortemente tendenciosas, sobre o atentado que essa mesma garota sofreu por parte de membros do Talibã, um grupo que insisto em classificar como terrorista, cujas garras e deturpações religiosas possibilitaram ações que vieram a ceifar a vida de diversos membros da comunidade paquistanesa. No ano de 2017, porém, decidi conhecer a história de Malala por meio de suas próprias palavras, através de sua própria visão dos fatos e, foi neste momento que compreendi que aquela garota não se tratava somente de uma vítima das maquinações de homens que tiram a vida de crianças e mulheres inocentes, essa mesma garota possui uma voz capaz de chamar a atenção do mundo para a necessidade e importância do acesso de meninos e, principalmente meninas, à educação.

Por que vocês só aceitam e reconhecem as mulheres depois que elas estão à sua frente num palco aberto? Por que não aceitam todas as mulheres como seres humanos, tal como vocês mesmos? Por que precisam esperar que uma escola seja incendiada e uma menina corajosa se levante e pergunte “Por que estão queimando minha escola?” e então se torne Malala do Paquistão? Por que uma menina precisa levar um tiro e então se tornar Malala mundialmente? Deixem que uma menina como Malala seja Malala sem todo esse sacrifício!

Foi com a leitura de Eu sou Malala, este belíssimo exemplo de biografia bem escrita, fundamentada e construída, que conheci a figura de Ziauddin Yousafzai, o pai de Malala, um dos principais responsáveis por demonstrar a importância da educação na vida de uma criança, de um indivíduo, de uma comunidade, não apenas para a filha que, até o momento, tratava-se de uma ativista em formação, mas para uma porção considerável de paquistaneses que, assim como ele, não conseguiam compreender e derrotar a força conquistada pelo Talibã.

Desde o primeiro momento em que as palavras de Malala me apresentaram esta figura atenciosa, responsável, presente e, ao contrário de todas as expectativas, inspirada nos mais nobres ideais, senti que aquele homem merecia ser ouvido com atenção. E verdade seja dita, minha intuição não poderia estar mais correta quanto ao ato de ouvir o que Ziauddin Yousafzai tem a dizer, seja sobre sua infância em uma pequena cidade do Paquistão, seu relacionamento com o pai, a relação de amor e apoio mútuo que construiu com a esposa ou mesmo os erros e acertos que cometeu ao longo da árdua e incessante jornada de formar e educar seus filhos.

Por tratar-se de uma biografia, um relato pessoal acerca dos eventos que possibilitaram a formação de um indivíduo, Livre para Voar objetiva abordar os mais diversos aspectos da vida de Ziauddin, partindo de sua infância e formação acadêmica até chegar a nova vida em Birmingham, Inglaterra, cidade onde vive com a família após o atentado à Malala. Contudo, o elemento essencial, aquela característica que une toda a obra é a crença deste pai nos benefícios e poderes transformadores da educação, é sua luta pelo direito à educação de meninos e, principalmente, de meninas, é sua jornada de compreensão da relevância do feminino para uma sociedade, bem como de sua defesa pelos direitos das mulheres. Aqui, antes de mais nada, observamos um garotinho curioso, esforçado e questionador. Acompanhamos um jovem que acreditava, e confiava plenamente que, para atingir seus objetivos ele precisava de uma boa base, uma boa educação. Encontramos um homem que desde o início sentiu a compreendeu as injustiças de sua sociedade e, na medida do possível e sempre com a voz elevada e ações que demonstrassem suas intenções, lutou não apenas pela educação de meninas, mas também por uma maior igualdade entre homens e mulheres.

Embora curto, finalizando em apenas 176 páginas, o livro consegue explorar os mais variados aspectos da vida paquistanesa, da relação entre pais e filhos, dos costumes de um país que muitos ainda não conhecem profundamente. Com uma escrita simples, acessível e em muitos aspectos direta, a narrativa construída por Ziauddin estabelece pertinentes críticas socioculturais, demonstra atitudes que possivelmente já observamos, ou mesmo enfrentamos em nossos contextos diferenciados, da mesma maneira, delineia mensagens que nos enchem de esperança e um sentimento gostoso de que é sim possível mudar o mundo, mesmo que seja modificando a forma de pensar e agir de uma pessoa por vez.

Além de todos os aspectos que destaquei até o momento, este é um livro tocante, surpreendentemente emocionante, do tipo em que quando o leitor menos esperar será posicionado frente à frente com situações e relatos que tocam o coração, podendo, ainda, provocar algumas lágrimas naqueles leitores mais emotivos.

De maneira geral, Livre para Voar é o relato de um pai acerca da criação de uma garota que sempre soube que poderia usar e levantar sua voz para lutar contra as injustiças do mundo. É a jornada de um homem cujo nascimento em uma cultura patriarcal sempre lhe ofereceu os mais diversos privilégios, mas que nunca descansou para construir um futuro igualitário para sua filha, esposa e tantas meninas e mulheres que sofrem com injustiças e crueldades irracionais, muitas vezes perpetuadas por deturpações em conceitos religiosos. Este é um livro sobre um pai responsável e presente que reconheceu os erros que cometeu e fez o possível para melhorar, é o relato de um pai para outros pais. É um livro sobre um verdadeiro professor, um diretor de escola que realmente acredita na educação, que luta pelo acesso à educação de meninas, que compreende as mudanças que uma educação de qualidade pode trazer para a vida destas garotas. É um livro sobre um feminista – e não quero entrar na discussão se homens podem ser feministas ou não – que nunca soube estar lutando pelos mesmos ideais pertencentes ao movimento feminista, mas que levantou sua voz e buscou dar o exemplo.

Este é um livro para todos, sejam estudantes, pais, professores, homens ou mulheres, defensores e ativistas pela educação, curiosos acerca da jornada desta família ou, somente leitores. As mensagens aqui contidas valem a leitura, os ensinamentos valem os momentos em que derramamos lágrimas e, acima de tudo, o sentimento de esperança que este livro espalha vale todas e quaisquer palavras que poderia utilizar para finalizar este texto.


  • Título Original: What Love Teachs Me
  • Autor: Ziauddin Yousafzai e Louise Carpenter
  • Tradução: Denise Bottmann
  • Ano: 2019
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 176
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