Imagine um mundo desolado onde a natureza, após anos sofrendo degradação e exploração incansáveis, invadiu e retomou espaços que sempre lhe pertenceram. Imagine um mundo em que grande parte da população humana sucumbiu à uma doença misteriosa e, cujos indivíduos remanescentes sobrevivem de maneira semelhante à de seus antepassados mais remotos. Agora imagine que, neste contexto de destruição e sobrevivência existem ainda espécies de animais nunca antes vistos ou mesmo imaginados por nossa sociedade atual, espécies estas que sobreviveram aos piores erros humanos e outras que, de maneira bizarra, admirável e curiosa, nos fazem pensar em humanos geneticamente modificados. Em meio a tantas modificações na realidade de um planeta que conhecemos e desconhecemos tão profundamente, o maior questionamento seria: como tudo terminou da forma como terminou?

O mundo inteiro é hoje um grande experimento fora de controle – como sempre foi, Crake teria dito – e a doutrina das consequências involuntárias está em franca expansão.

Assim voltamos ao passado do Homem das Neves, quem vive praticamente sozinho neste mundo desolado, o único próximo o bastante para interagir com esta nova espécie geneticamente modificada de seres humanos e lhes aconselhar acerca da nova realidade em que se encontram, uma das poucas pessoas que realmente conhecem e guardam as respostas sobre a trajetória que direcionou a humanidade à quase extinção. Jimmy, como era denominado no passado, viveu grande parte de sua existência em meio a segurança, alienação e conforto de grandes bairros murados, pertencentes a grandes corporações cujas atividades questionáveis possibilitaram a degradação do ambiente natural, elevação do consumismo e redução do poder de governos e vozes cujos discursos poderiam gerar algum tipo de mudança.

Enquanto seu pai, juntamente à uma grande quantidade de outros cientistas, pesquisadores, gerentes de marketing e diretores atiravam o princípio da responsabilidade, bem como a ética e a moral pelas janelas de suas salas espaçosas, Jimmy tornava-se amigo de Crake, um garoto prodígio cujos pensamentos seriam responsáveis por instigar férteis debates em diversos âmbitos sociais, além de perpetuar os pensamentos necessários para a criação de um futuro inesperado. Enquanto Jimmy apresenta-se como um jovem comum que se encaminha para um futuro comum, uma pessoa muito mais preocupada com o relacionamento amoroso que firmou com Oryx, parceira de Crake, do que com a instabilidade do mundo em que vive, Crake ingressa na melhor universidade disponível, estabelece planos que Jimmy desconhece e, quando o leitor menos espera – apesar das pistas espalhadas por todo o livro – lança o mundo pelos ares.

Embora considere Oryx e Crake uma das melhores obras de ficção científica distópica escritas e publicadas no século XXI, confesso que a tarefa de abordar sua história, de maneira a introduzi-la a novos leitores, é no mínimo desafiante. Ainda que os elementos essenciais do enredo estejam presentes nos parágrafos anteriores, o que não percebemos são as nuances desta narrativa, a extensão das duras críticas e aguçados comentários relacionados aos mais diversos aspectos da vida humana, da construção da sociedade e, principalmente, da relação, dependência e abuso humano perante a ciência e tecnologia. Jimmy, Oryx e Crake são os personagens principais desta narrativa sim, porém, o que um resumo ou uma simples explicação do enredo do livro não demonstram são as formas com que estes personagens também funcionam como veículos para os debates que a autora propõe ao longo de toda a obra.

Juntamente à trajetória de cada personagem, aos eventos que marcaram suas vidas, as características peculiares de suas personalidades, aos relacionamentos amorosos que firmaram, as amizades que construíram e aos desafios que enfrentam no futuro catastrófico da humanidade, observamos também, com uma proximidade e relevância tamanhas, o contexto da sociedade em que cada personagem se encontra. Analisamos a falta de responsabilidade de grandes empresas, a falta de ética em empreendimentos e pesquisas científicas, as criações bizarras de novas espécies de animais, o consumismo desenfreado, a degradação e exploração inconsequentes do meio natural, a manipulação genética de animais e plantas de maneira com que suas vidas sejam reduzidas a elevar o lucro de humanos ou produzir mais por custos reduzidos. Como toda boa obra de ficção científica distópica, Oryx e Crake não se limita a delinear a vida e desafios de um ou mais personagens principais, ela estabelece conexões diretas com a realidade em que vivemos, forçando o leitor a refletir, clamando para que não sejamos apenas leitores passivos, entretidos por mais um livro de ficção.

Aqui Margaret Atwood corrige um dos maiores problemas da narrativa de O Conto da Aia. Muito mais do que explorar o percurso dos personagens principais, de posicionar-se em prol do movimento feminista e delinear as mais belas e duras críticas a sociedade em que vivemos, ela demonstra de forma ampla e com riqueza de detalhes como e, mais magnificamente ainda, porquê o mundo desta história chegou onde chegou. Não confundindo as informações oferecidas pelo seriado O Conto da Aia, com o que verdadeiramente encontra-se na obra original, o livro mais famoso da autora carecia de informações profundas sobre os diversos aspectos que conduziram ao mundo autoritário da obra.

Ainda que explorasse características políticas, voltadas ao surgimento de grupos armados extremistas, bem como alguns elementos mais sutis das mudanças sofridas naquele mundo fictício, eram poucos os comentários aprofundados sobre outros aspectos da sociedade que auxiliaram a consolidação do governo autoritário que observamos em O Conto da Aia. Contudo, aqui a autora abraça o mundo e suas falhas, criando um universo ficcional que, além de posicionar-se feminista e estabelecer suas críticas sociais, explora os mais variados elementos que possibilitaram a chegada do desalento humano. O que Margaret Atwood faz aqui é mostrar a inter-relação de fatores que propiciam a destruição ou ascensão de modelos de pensamento, governos, sistemas sociais ou mesmo culturas. Da mesma maneira como no mundo real, sua obra demonstra que eventos específicos não acontecem devido a um único aspecto ou grupo social, mas sim por meio de uma infinita conexão de elementos que direcionam os caminhos humanos.

As jornadas individuais são tão importantes quanto o próprio contexto da sociedade em que cada personagem está inserido, por isso torna-se tão complexo abordar a narrativa do livro. Enquanto acompanhamos o crescimento, amadurecimento e tomada de consciência do personagem principal, Jimmy, refletimos também sobre nossa falta de reflexão e criticidade, sobre os erros que cometemos enquanto sociedade, sobre nosso completo descaso para tudo que não seja humano e, assim, descobrimos também as consequências de nossas ações.

Oryx e Crake é o início de uma trilogia fascinante, única, afiada como a própria autora e, principalmente, digna de carregar consigo os gêneros literários da ficção científica e distopia. Margaret Atwood não perde as características que tanto encantaram, ou mesmo assombraram os leitores de O Conto da Aia, seguindo com suas críticas sociais ferrenhas, seus personagens bem construídos, seus mundos sombrios e fortemente inspirados na realidade em que vivemos, a diferença é que neste primeiro livro ela amplia os horizontes, possibilitando ao leitor questionar uma quantidade considerável de elementos, além de acompanhar outra magnifica história. Como já disse em outras ocasiões, Oryx e Crake, ou mesmo a Trilogia MaddAdão, são ainda melhores do que o livro mais famoso da autora, obras que merecessem ser lidas por leitores apaixonados e questionadores.

  • Título Original: Oryx and Crake
  • Autor: Margaret Atwood
  • Tradução: Léa Viveiros de Castro
  • Ano: 2018
  • Editora: Rocco
  • Páginas: 350
  • Amazon

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