O terror que permeia nossas leituras parece muito mais natural, temos muito mais obras do gênero do que existiam há alguns anos, com muito mais possibilidades e variedades do que gerações passadas tiveram, isso se deve ao fato de, primeiro, termos muito mais títulos sendo traduzidos para o português, mas principalmente pela nossa literatura em si estar sendo difundida para outros gêneros literários, com escritores brasileiros escrevendo mais.

Mas e se eu contasse pra vocês que aqueles escritores clássicos, que precisamos ler obrigados durante nossa formação no colégio, que muitas vezes achávamos chatíssimos, que chegam até a desanimar o leitor em formação, já escreveram também coisas interessantes e voltadas para o terror?

Sim! Machado de Assis, Alvares de Azevedo, Fagundes Varela e tantos outros escreveram tantos contos, tantas obras, que em algumas delas existe um peso de terror muito forte, digno de obras como as escritas por Edgar Allan Poe, o pai do terror mundial.

Em Medo Imortal, o organizador Romeu Martins, reúne contos de 13 Imortais da Academia Brasileira de Letras escolhidos entre os patronos, fundadores e primeiros eleitos e monta a obra com uma das edições mais lindas do ano, sem sombra de dúvidas. Mas não é só da beleza que se mantém o livro, o conteúdo que ele apresenta é diretamente proporcional em qualidade à sua incrível edição. Ao total são 36 contos e Machado de Assis e Júlia Lopes de Almeida, a única mulher da obra, são os que contam com mais histórias, são seis de cada um e para os demais escritores, a obra conta com um a três contos no livro.

A edição ainda conta com uma breve apresentação de cada um dos autores, mostrando ao leitor quem eles são, suas principais obras e o motivo real de estarem nesse livro, também existe uma ilustração para cada um deles, caricaturadas por Lula Palomanes, apresentando um pouco do estilo e das feições de cada imortal.

A importância desses autores em destaque na obra fica clara, não só pela quantidade de contos, mas também por seu peso histórico, que é deixado bem claro nessa breve introdução citada acima. Machado é importante de uma maneira já muito bem conhecida pela maioria de nós, ele foi um dos formadores da nossa literatura e seus contos são aqueles que temos como primeiro registro de terror no nosso país. Mas a importância de Julia de Almeida é ainda maior, ela foi a primeira mulher a escrever tão bem no país, a ponto de precisar dizer que suas obras eram do seu marido, e não suas, para que ele ganhasse uma cadeira de imortal no lugar dela, já que mulheres  não eram permitidas na Academia até então.

O preconceito com a mulher fica muito claro em cada um dos contos, são pouquíssimos aqueles que não tratam de violência contra a mulher ou que não colocam o sexo feminino como algo ruim em sua obra, o que mostra muito da nossa sociedade na época. Mas convenhamos que as coisas não mudaram tanto assim nos últimos 100 anos.

Falando em 100 anos, um grande problema que enfrentei durante a leitura foi a linguagem usada nele, apesar de as histórias serem em sua maioria muito boas, a maneira como se escrevia na época dificulta muito o entendimento da leitura e o seu desenvolvimento. Mas de qualquer forma, Medo Imortal é indispensável, seja pela sua beleza, pela qualidade dos contos, pela crítica social e história, ou simplesmente pelo fato de que é melhor conhecer Fagundes Varela falando de terror do que pela obra Pendão Auri-Verde, a essência é a mesma, a linguagem também, só que uma é de contos sobre a pátria e Medo Imortal é sobre terror, qual você escolheria?

  • Medo Imortal
  • Autor: Vários
  • Ano: 2019
  • Editora: Darkside Books
  • Páginas: 464
  • Amazon

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