Alguns livros constroem-se por meio de uma escrita tão densa que, no exato momento em que iniciamos o processo de edição da resenha, sentimos dificuldade em abordar os detalhes textuais daquele livro desafiante. Outros livros, contudo, direcionam o leitor por entre reflexões infinitas acerca da vida, do mundo, de nossos sentimentos, bem como da própria humanidade e sentimos o peso de tudo o que observamos ao longo da leitura e ficamos confusos sobre os melhores meios de abordar a extensão daquelas palavras.

Mas ainda existem aqueles casos específicos e especiais em que, após ser tocado pelas palavras do escritor, após interpretar as metáforas, analogias e alegorias da obra, após sentir e confirmar com seu coração e alma que aquele livro é maior do que suas páginas, suas linhas e seu próprio formato físico, o processo de escrita da resenha se transforma em algo novo, curioso, mágico e confuso, pois, como abordar um livro que vai muito além de suas próprias palavras?

E foi naquela semana de outubro que eles cresceram da noite para o dia e nunca mais foram tão jovens…

Algo Sinistro Vem Por Aí se encaixa perfeitamente nesta indagação, porém, por mais que me esforce para apresentar a narrativa deste livro, que tente demonstrar a beleza de suas frases, que busque expressar os sentimentos que ele evoca, esta obra somente será compreendida pelo leitor quando este efetivamente realizar a leitura. Ao contrário de tantos outros livros que já compartilhei com vocês em formato de texto, este exige a leitura, exige a atenção do leitor, exige nossa compreensão de que, as imagens, cenários e personagens desta narrativa não são apenas imagens, cenários e personagens, eles vão muito além, mas somente a leitura será capaz de expressar tudo o que tentarei demonstrar para vocês.

Ao contrário de outros autores queridos, os quais carrego no coração como preferidos da vida, Ray Bradbury era um nome que, apesar de amar incondicionalmente, conhecia única e exclusivamente pela leitura de Fahrenheit 451 – também classificado pela pessoa que vos fala como leitura obrigatória para qualquer amante de livros e, principalmente, qualquer amante de distopias. Suas obras estavam no meu radar, nas minhas intenções de leitura, bem como na minha lista de futuras aquisições a muito tempo, mas a vida segue rumos peculiares e, aproximadamente um ano após me apaixonar por Fahrenheit 451, surgiu a oportunidade de ingressar em outro mundo criado pelo escritor.

Assim, sou transparente quando afirmo que tinha tudo, absolutamente tudo para me encantar por este livro, porém, o que aqui encontrei vai muito além de encantamento, do amor profundo por um livro, da certeza de que estas páginas protegem algo maravilhoso. Trata-se da certeza de Ray Bradbury não pode ser enquadrado em um gênero, em uma linha de raciocínio, em um modelo de escrita.

Algo Sinistro Vem Por Aí é uma história sobre a amizade, amadurecimento e aventuras dos garotos Jim Nightshade e William Halloway. É uma história sobre o relacionamento entre pais e filhos, sobre o cuidado, carinho e senso de proteção existente por parte de um pai perante os perigos que seu filho corre. É uma história sobre crescer, sobre deixar de ser criança, sobre a tristeza que sentimos ao relembrar acontecimentos que não voltam mais, mas também sobre a alegria de ter vivido todo e cada um destes momentos preciosos. É uma história sobre a passagem do tempo, mas não da maneira como você poderia imaginar que um livro sobre deveria ser. É uma história sobre luz e sombras e como estes dois elementos são capazes de conviver dentro de nós, mas também sobre como as sombras podem nos consumir até que nada a não ser desgosto, angústia, sofrimento e crueldade permeiem nossos caminhos. E, por fim, esta é uma história sobre escolhas e como elas podem moldar nosso destino.

Por abordar uma quantidade considerável de assuntos e elementos, por introduzir uma quantidade maior ainda de reflexões e interpretações, e, por possibilitar a assimilação de tantas mensagens importantes, tocantes, encantadoras e pertinentes, torna-se difícil explicar do que, ou o que, exatamente, é esse livro. Ele é diversas coisas e apenas uma. Ele é grandioso na mesma medida em que é adorável em sua pequenez. Ele é profundamente interpretativo e clama que seu leitor sinta o que precisar sentir, observe o que precisar observar, analise o que precisar analisar pois, somente assim a obra demonstrará tudo o que nos cabe compreender, aprender e carregar no momento da leitura.

Como muito ressaltei, a escrita deste livro baseia-se na construção de metáforas, analogias e alegorias, portanto, cada acontecimento, personagem, cenário ou ação representa algo mais, indica determinada interpretação ou reflexão. Assim, esta é uma obra que exige atenção, devoção e carinho por parte do leitor, além do exercício de sua criatividade e pensamento crítico, uma vez que tudo o que acompanhamos pode transformar-se em mensagens muito maiores e ao mesmo tempo tão simples e comuns quanto a imaginação e aventuras enfrentadas por uma criança.

Com sua narrativa, Ray Bradbury prova que não precisamos de reviravoltas mirabolantes, explosões imensas ou eventos dramáticos para inserir o leitor no mundo fictício de um livro. Muitas vezes, necessitamos apenas de um parque misterioso que chega no meio da noite, de dois amigos inseparáveis, de um pai assustado que deseja somente fazer o bem, e, de um escritor disposto a depositar cada palavra de maneira a edificar um universo fantástico, carregado de luz e sombra, além de instigante de uma maneira única.

O que senti ao longo da leitura de Algo Sinistro Vem Por Aí, talvez tenha sido sentido por todos os leitores que já se aventuraram por esta obra. Porém, talvez seja uma experiência única e, embora meu amor pelo livro e seu escritor seja imenso, e as mensagens que recebi seguirão comigo pelo resto da vida, é possível que outros leitores observarão a narrativa como algo estranho, curioso sim, mas complicado de interpretar e difícil de explicar. O que senti ao longo da leitura não pode ser expresso em palavras pois relaciona-se às minhas vivências, às minhas filosofias, a tudo o que eu precisava ler no momento em que iniciei a leitura. Embora minha tarefa de apresentar a obra seja complicada e desafiante, ainda que vocês não tenham compreendido tudo o que desejei transmitir com este texto, existe uma última mensagem que preciso redigir para finalizar esta resenha e, quem sabe, ela auxilie alguns a entender o que encontramos aqui.

Existem livros que são compreendidos apenas com uma sinopse. Existem livros que buscam apenas divertir, entreter. Existem livros que pretendem transmitir mensagens, reflexões ou mesmo endereçar duras críticas ao nosso mundo. Outros, porém, nos levam para novos mundos onde tudo pode significar algo mais, onde as lições serão desvendadas por cada leitor de maneira única e especial e, por mais que defenda a teoria de que cada leitor compreenderá um mesmo livro de uma forma diferente, acrescento, para finalizar essas reflexões confusas e entusiasmadas, que alguns livros, peculiares, maravilhosos e especiais, nunca serão compreendidos se o leitor não se aventurar por suas páginas e, verdadeiramente, ler sua história! E Algo Sinistro Vem Por Aí, meus caros e queridos amigos, é um exemplo perfeito deste caso.

  • Something Wicked this Way Comes
  • Autor: Ray Bradbury
  • Tradução: Jorge Luiz Calife
  • Ano: 2019
  • Editora: Bertrand Brasil
  • Páginas: 265
  • Amazon

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