“Aaaaahhh!”
Assim como nos outros dias, o menino despertou de um pesadelo terrível.

Ko Moon-Young disse certa vez que os contos de fadas servem para contar verdades dolorosas e assustadoras sobre a vida e para nos ensinarem lições valiosas sobre os relacionamentos humanos. Para Ko Moon-Young não existem vilões ou heróis, para ela, uma bruxa pode ser boa e uma princesa alguém fútil cuja beleza leva ao egoísmo profundo. A visão da autora sobre suas próprias obras vão do realista ao pessimista e podem ser tristes quando analisadas pelo olhar mais maduro de um leitor adulto. Mas a magia se encontra justamente na capacidade da autora em nos entregar histórias aparentemente simples, porém carregadas de significados.

Ko Moon-Young é uma adulta cheia de dores e feridas, que se esconde atrás de uma escrita sombria e misteriosa para revelar recortes de sua própria infância. Seu público é justamente o infantil. Talvez em uma tentativa desesperada de salvar outras crianças de um otimismo perigoso, talvez para alertá-las que a vida pode ser mais cruel do que você pensa, e assim evitar a queda dolorosa da decepção.

Muitas sãos as hipóteses, e nenhuma delas é real, já que até mesmo a autora é apenas um personagem fictício do drama coreano “Its Okay to not be Okay”. A série, que é um original Netflix, ficou no top 10 Brasil durante várias semanas. A qualidade do enredo e desenvolvimento da história se refletem no sucesso que os contos de fadas fizeram dentro e fora das telas. Na trama, Ko Moon-Young é uma escritora de livros infantis e suas obras possuem muitos fãs dentro desse universo, mas também geram uma série de críticas devido ao teor dos textos que é sempre cheio de nuances assustadoras.

O cuidado que os produtores da série tiveram em criar as obras em sua totalidade, com capa, ilustrações, e até mesmo a publicação física dos livros, reafirmam o compromisso de fazer um fanservice completo. A partir disso, os livros começaram a ser comercializados no idioma original para alegria geral dos fãs coreanos. O Brasil é o único país do mundo, depois da Coréia do Sul, a publicar os livros do drama. Que orgulho da minha editora Intrínseca. O livro, assim como os demais, foi escrito por Jo Young, a roteirista da série e ilustrado pelo designer Jam San.

HORA DO DRAMA: Its okay to not be okay

O menino que se alimentava de pesadelos, é a primeira obra a ser narrada na série. A história é contada em dois momentos diferentes, em contextos extremamente importantes. Em um primeiro momento Ko Moon-Young é quem faz a leitura da obra em uma ala infantil de um hospital psiquiátrico. No entanto, o telespectador só conhece a história completa quando ela é lida por um outro personagem em uma cena bastante tocante, cheia de lágrimas e auto conhecimento. Se eu pudesse resumir esse conto de fadas em uma frase, ela seria: minha terapia agradece.

O livro possui 24 páginas de um texto simples e aparentemente infantil. As ilustrações são lindas e possuem um ar gótico, algo que já vimos em grandes produções como A Casa Monstro e Coraline. A delicadeza das histórias infantis se mescla com perfeição ao texto cheio de significados sombrios e meticulosamente ocultos. Uma criança lê o livro e certamente gosta das ilustrações, talvez goste da história e do desfecho nada convencional. Mas o adulto… esse vê a si mesmo, como se olhasse para um espelho.

No conto de fadas, um menino é atormentado por pesadelos. Ele está desesperado, pois seu sono nunca é tranquilo e sua mente é constantemente alvejada por lembranças tristes e dolorosas de sua própria vida. Mas ele não quer reviver essas dores. Ele não quer olhar para elas e lembrar do que passou. Ele quer esquecer, que seguir em frente e finalmente dormir sem medo. Mas como isso não é possível, ele resolve pedir ajuda à uma bruxa. Ele está disposto a dar qualquer coisa em troca para finalmente se livrar de suas memórias. A bruxa pede algo muito simples: que quando ambos se reencontrarem, o menino seja um adulto feliz. O menino tinha certeza que se as memórias ruins sumissem, ele finalmente poderia ser feliz, então contente aceitou o acordo da bruxa.

Eu sempre me perguntei que tipo de adulto eu seria se perdesse a memória. Se eu ainda seria como sou hoje, se ainda teria a mesma opinião e se ainda agiria da mesma forma. Eu não gosto de romantizar o sofrimento, mas independente disso todos nós temos dores, traumas, lembranças tristes. Já dissemos adeus a quem amávamos, já ouvimos coisas que nos feriram, já vimos maldade demais no mundo. Mas nós somos uma construção de todos esse tijolinhos que foram colocados em nossa vida pelas experiências que tivemos. E quando o sol chega, depois de uma noite de tempestade, ele é ainda mais brilhante, mais caloroso, mais bem-vindo. Ele tem cheiro de recomeço e sabor de esperança, e então a gente sente ele aquecer a pele e sente alegria. Esse pequeno momento, essa pequena percepção, poderíamos chamar de felicidade.

Na vida real as bruxas que usamos para esquecer nossos infortúnios podem ser outras ferramentas de fuga, tão eficazes quanto um passe de mágica. Alguns se escondem no entretenimento, consumindo conteúdos sem parar, outros fazem uso de álcool, drogas e se debruçam sobre outras experiências viciantes. A busca é a mesma: fuga. E enquanto estamos nos divertindo, há uma criança que chora. Essa criança quer ser vista, mas é difícil demais confrontá-la em suas dores.

São 24 páginas que contém uma imensidão de significados. Um livro que eu faço toda questão de ter na estante. Eu quero lembrar da importância de não fugir, quero lembrar da importância de olhar pra minha criança interior e escutar o que ela tem a dizer, quero lembrar que o amadurecimento inclui superar e não apenas esquecer. Essa resenha podia ser o script da minha sessão de terapia, mas é apenas um texto singelo sobre uma obra despretensiosa porém magnífica. O desfecho traz uma importante lição, assim como Ko Moon-Young alertava:

Somente aqueles que vivem guardando essas lembranças num cantinho do coração são capazes de se tornarem mais fortes, mais calorosos, mais flexíveis. A felicidade é conquistada justamente por quem age assim.

Eu sou completamente fã dessa série e de cada um dos livros que ela originou. A Intrínseca publicou todas as obras e eu vou adquirir cada um dos títulos. Se você que saber mais sobre a série, já falei dela aqui no Estante Diagonal e você pode conferir acessando o link aqui desta resenha!

“Leiam muitos contos de fadas e acordem.”
Ko Moon-Youg

  • 악몽을 먹고 자란 소년
  • Autor: Jo Yong / Jam San
  • Tradução: Jae Hyung Woo
  • Ano: 2021
  • Editora: Intrinseca
  • Páginas: 24
  • Amazon

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