Arlindo é um garoto querido, filho dedicado, estudante esforçado e amigo leal que, como tantos outros e outras, enfrenta os desafios, conflitos e descobertas da adolescência. Seu cotidiano remete aos mais nostálgicos momentos da juventude que cresceu e amadureceu entre a virada dos anos 1990 e 2000, quando passávamos horas cantando Sandy e Júnior ou desvendando o significado por trás das composições da Pitty.

Esse também foi o período em que as vídeo locadoras arrebatavam nossos corações por disponibilizarem os maiores e mais fresquinhos sucessos de Hollywood e, em que perdíamos horas no aconchego do falecido MSN batendo papo com os amigos e primos, nunca imaginando que, em breve as mídias e redes sociais transformariam nossa percepção da realidade, do tempo, espaço e da própria vida e essência de indivíduos espalhados pelo mundo inteiro.

“Tá tudo bem e quando não tá, é porque ainda vai ficar. ”

Neste contexto nostálgico e encantador, Arlindo se esforça para completar os estudos, aconselhar e apoiar as amigas em suas próprias jornadas, cuidando da irmãzinha enquanto auxilia a mãe na preparação de bolos e doces que contribuem com a renda familiar. Em meio aos acontecimentos e problemas do cotidiano, acompanhamos a efervescência de sentimentos que nascem com a chegada do novo aluno no colégio, os campeonatos de corrida e as dificuldades comuns da adolescência.

Ao mesmo tempo, observamos o intimo processo trilhado pelo personagem a fim de perceber-se, aceitar-se e compreender sua essência mesmo com todas as fofocas da vizinhança, com o julgamento da comunidade escolar e com o preconceito do pai.

Publicada originalmente em formato webcomic, Arlindo entrou em financiamento coletivo no final de 2020, quando a Seguinte, selo jovem da Companhia das Letras, apostou na publicação dessa história em quadrinhos que, em tempos turbulentos e confusos, nos traz um quentinho no coração, proporciona um sorriso no rosto e nos lembra que “a gente não tá só”.

Com ilustrações e traços que seguem o estilo cartum, Arlindo amplia as possibilidades de conexão entre leitor, história e imagens, uma vez que, por reduzir o detalhamento da construção e apresentação de seus cenários e personagens – aqui me refiro ao sentido da expressão artística -, focando na interação entre aquele que lê e os eventos apresentados ao longo da narrativa, permite o fortalecimento do sentimento de empatia, respeito, compreensão e carinho perante (quase) todos os detalhes da história. Nesse sentido, tendo virado apenas algumas páginas da obra, nos encontramos cativados pelo protagonista, torcendo por sua felicidade na mesma medida em que rimos de suas trapalhadas ou nos entristecendo com a realidade que sabemos existir para além da ficção.

Colorida em tonalidades dos mais marcantes rosa e amarelo ao mais sóbrio roxo e lilás, com ilustrações adoráveis no mais fofo estilo cartum e repleta de referências ao contexto vivenciado por crianças, adolescentes e jovens dos anos 2000 – tudo depende da idade que você tinha quando essa época peculiar aconteceu-, Arlindo maravilhosamente equilibra críticas sociais, momentos difíceis e cenas leves e engraçadas. Na mesma medida em que demonstra o cotidiano do protagonista, bem como suas dúvidas e desafios, suas dores e alegrias, suas amizades e interesses amorosos, suas relações familiares e construção de visão de mundo, a história em quadrinhos nos permite retornar ao universo cativante das narrativas adolescentes, trabalhando harmoniosamente cada detalhe para construir uma atmosfera convidativa e aconchegante ao mesmo tempo em que nos deixa com um sorriso no rosto, um quentinho no coração e a certeza de que “tudo ficará bem”!

Arlindo é uma história sobre perceber-se, conhecer e reconhecer-se enquanto sujeitos cuja essência nem sempre é aceita pela sociedade, pelos familiares, por aqueles que estão ao nosso redor. É uma história sobre persistência, enfrentamento de desafios e dificuldades, além da luta respeito, empatia e compreensão. É uma história sobre família, amizade e amor que, por mais “simples” que pareça, delineia o caminho que ainda precisamos trilhar a fim de celebrar a diversidade que tanto pregamos. E acontece que, em meio a todos esses direcionamentos e certezas, Arlindo também é uma história sobre a leveza, encantamento e bom humor de uma fase que enfrentamos ao longo do sopro da vida.

Trata-se de uma história que nos eleva muito mais do que põe para baixo, nos anima muito mais do que desencanta, que verdadeiramente nos abraça e demonstra a luz que ainda existe nesse mundo enorme. E, por todas e cada uma dessas características, é uma história que deixa nosso caminho um pouquinho mais leve, relembrando que não existe problema algum em ser diferente e que, em momento algum, estávamos sós!

  • Arlindo
  • Autor: Luiza de Souza
  • Tradução: -
  • Ano: 2021
  • Editora: Seguinte
  • Páginas: 200
  • Amazon

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