Jane é órfã, seu pai era um sacristão, que se casou com a filha de um homem rico, um relacionamento que não foi bem aceito, ambos faleceram cedo, deixando a jovem sozinha no mundo. Um irmão de sua mãe, que a tinha em alta estima, adota Jane e passa a tratá-la como se fosse sua filha, só que ele também acaba falecendo, e Jane fica aos cuidados da esposa do mesmo, que ao contrário do marido, não gosta da garotinha e a trata muito mal, sempre a lembrando que ela mora ali de favor, que não é bem-vinda e junto com seus três filhos mimados, não perde uma oportunidade de humilhá-la e maltratá-la.

Aos dez anos, Jane já não aguenta mais ser alvo de tamanho terror, ela entende sua posição dentro da casa, tem consciência de quem é, mas não consegue se controlar em meio a uma situação ruim, e desabafa, tem uma crise e desconta justamente em sua tia, que aguardava apenas uma oportunidade para se livrar dela. Enviada para uma instituição de caridade, Jane continua a enfrentar muitos problemas, ela já chega tida como uma criança malcriada, incontrolável, o que faz com que a vigiem de perto, e crie distanciamento das demais crianças, até que uma professora reconhece seu esforço e a torna sua protegida.

O local é paupérrimo, com acomodações precárias, comida escassa, as meninas que ali moram, passam fome e frio constantemente, e precisam conviver com regras rígidas. E é justamente por toda essa situação, que um surto de febre tifoide acomete o lugar, matando muitas das meninas, Jane sobrevive, consegue se formar na instituição, e por dois anos ali leciona. Já com seus dezoitos anos, e algumas circunstâncias, ela sente que é hora de deixar o local, de buscar melhorias e publica um anúncio oferecendo seus serviços como preceptora, ela possui qualificações para isso, mas ainda assim, segue desacreditada quanto a possibilidade de arrumar uma nova ocupação, para sua surpresa, o anuncio é respondido, e sem pestanejar ela aceita o emprego a ela oferecido.

Jane reuni seus parcos pertences e ruma para a casa a qual foi contratada no norte da Inglaterra, ali ela é muito bem recebida, o que a surpreende e encanta, Jane irá cuidar de Adele, uma garotinha francesa, esperta e dócil. Seu novo lar é acolhedor, e não demora para que ela passe a gostar e desfrutar de sua nova posição e é somente algum tempo depois que Jane se dá conta de que o dono da casa não está presente e ao que tudo indica, Adele é apenas sua protegida e não filha. Sr. Rochester é uma figura peculiar, que passa alguns dias em sua propriedade e meses longe, é um homem descrito como sendo de pouca beleza, porém muito inteligente, firme e que assim como sua casa, oculta alguns segredos.

“(…) De modo geral é esperado das mulheres que sejam muito calmas, quietas, mas elas se sentem exatamente iguais aos homens; precisam exercitar suas faculdades, precisam de um campo para seus esforços, tanto quanto seus irmãos. Sofrem restrições rígidas demais, são submetidas à estagnação absoluta, e é uma estreiteza de mente achar que isto está certo, que elas devem se limitar a fazer pudins, tricotar meias, tocar piano e bordar sacolas. É falta de sensibilidade condená-las, ou rir-se delas, quando procuram fazer mais, ou aprender mais do que se convencionou necessário pelo faro de serem mulheres.”

Jane Eyre é um clássico da literatura, e tido como uma das obras mais importantes e memoráveis da história, é também o livro mais conhecido da autora Charlotte Brontë, que possui mais duas obras – Violette e Shirley. Aqui não encontraremos somente uma história de amor, e sim um romance de formação, ou seja, uma história de amadurecimento, o que quer dizer, que iremos acompanhar a protagonista, Jane Eyre, desde sua infância até sua vida adulta, em um estado de maior maturidade. Outro ponto que quero mencionar sobre a narrativa, é que a obra é como se fosse uma autobiografia, Jane está narrando sua história em primeira pessoa para seus leitores.

Caros, leitores! Eu tenho tido como meta ler mais clássicos, e tenho tido experiências de leituras maravilhosas e Jane Eyre foi um grande presente. A conhecemos ainda garotinha, vivendo em meio a uma família que não suporta a sua presença, e fazem de um todo para deixar isso bem claro. Jane é exposta a castigos cruéis e injustos, falas grosseiras e maus-tratos que partem nosso coração logo no início da leitura. Ela é órfã, e por ser constantemente oprimida, acaba desenvolvendo maturidade muito rápido, se tornando consciente de seu “lugar”, “posição” e “condição” muito cedo.

Quando ela é enviada para uma instituição de caridade, um lugar assombroso, rígido e paupérrimo, ainda que seja ruim, ela sente alívio por se ver longe do horror que era sua vida anterior. Jane está determinada a mudar sua vida, a tirar proveito de sua nova realidade, e se esforça muito nos estudos e em tudo o que faz, ávida por aprender, ciente de que o único modo de ascender socialmente é com sua determinação e conhecimento, já que, por ser pobre e não possuir nada, ela não tem conexões, nem atrativos – Jane é descrita com uma personagem de beleza no máximo mediana -, ela não teria outros meios para buscar sua tão sonhada independência. Ela também aprende que precisa controlar, reprimir seus impulsos, agradar as pessoas a sua volta. Anos na instituição a moldam, a tornam uma jovem séria, inteligentíssima, e muito certa de suas convicções, ela sabe o que quer, e após dois anos lecionando na instituição, e por outra circunstância – que não irei mencionar -, ela decide publicar um anuncio a procura de um emprego como preceptora.

“— Eu sabia — continuou ele — que de alguma forma você me faria bem, em algum momento. Estava em seus olhos na primeira vez em que a vi. A expressão deles e o sorriso não… — ele fez outra pausa — … não — repetiu com ênfase — me impressionaram à toa. As pessoas falam de simpatias naturais. Já ouvi falar de gênios bons… Há grãos de verdade na mais selvagem das fábulas. Minha querida salvadora, boa noite!

Para sua total surpresa o anuncio é respondido, Jane consegue um emprego fora dos portões que foram por tantos anos sua casa, e parte rumo a uma nova jornada em sua vida, no norte da Inglaterra, no seio de um lar disfuncional, mas reconfortante ao mesmo tempo, Adele é uma garotinha francesa apaixonante, os demais criados são respeitosos e a acolhem muito bem, e até mesmo a figura austera do Sr. Rochester, se torna especial. Não é segredo, portanto não acredito que seja um spoiler eu mencionar que Jane se apaixona por seu patrão, ela consegue enxergar o homem por trás da pouca aparência, ainda que inicialmente tenha se assustado com seu jeito de ser, não demora para que ela note que ele é uma figura sarcástica, inteligente, provocador, que a busca para diálogos instigantes e essa aproximação que aflora aos pouquinhos, vai se estreitando, a relação ganha força, e um pedido de casamento acaba sendo feito… porém não se concretiza, ainda que se tente explicar aquilo que não se tem explicação, os caminhos deles em determinado momento da história se separam, e mais uma vez, nos deparamos com nossa protagonista partindo rumo a uma nova jornada, que ela se quer planejou, tomou para si consciência do que estava fazendo e as consequências disto.

Jane é uma personagem complexa, mas que cativa o leitor. Junto com ela vivemos um misto e milhares de emoções, reviravoltas a cada virar de página. Como mencionei inicialmente, não é um livro focado no romance e sim no amadurecimento e crescimento da protagonista, o romance está ali presente, ele representa momentos importantes e decisões que mudam o rumo da história por diversas vezes, mas o foco é nossa Jane e suas muitas faces; A garotinha oprimida e rejeitada, a adolescente dedicada e determinada, a professora, a preceptora, a mulher que se apaixonada, que tem necessidade de ser amada, que quer viver um amor e ainda assim, deseja ser livre, jamais aceitando se tornar uma prisioneira, uma pessoa de muito fé, moldada por ensinamentos de moralidade, ética e status social, e por aí vai… Jane é muitas em uma só e essa intensidade e força fica muito clara para o leitor.

“Acusada em meu próprio tribunal, a memória dava evidências das esperanças, anseios e sentimentos que eu acalentava desde a noite anterior, do estado de espirito em que me encontrava nas últimas quase duas semanas, e a razão se interpôs, séria e austera, mostrando a realidade em contraste com o que eu havia idealizado. E minha própria conclusão foi de que nunca habitou a terra e respirou o ar da vida uma tola maior que Jane Eyre; que nunca existiria alguém tão pateta a ponto de se fartar com mentiras doces e engolir veneno como se fosse néctar.”

Eu confesso para vocês que AMEI essa leitura, o livro é grande, mas não é cansativo, você deseja ler mais, descobrir o que está por vir, a revelação do segredo e mistério que ronda parte da história. Já aviso também que aqui em minhas palavras, não fiz jus a tudo que vocês irão encontrar, Jane Eyre é uma baita leitura, com muitas nuances, acontecimentos e reviravoltas que você não imagina que irá encontrar. E tudo isso me encantou e me prendeu, proporcionando uma leitura muito especial. Entretanto, ainda assim, preciso dizer que retirei meio ponto da minha nota, porque conclui a leitura com um gostinho agridoce, eu esperava, ou melhor, eu torci por um final diferente, eu ansiei verdadeiramente por algo a mais… ela merecia um desfecho de roubar o fôlego. Mas, preciso deixar muito claro que essa é uma opinião totalmente MINHA, e que muito provavelmente até a Jane pensa o contrário. Houve também outros pontos que me incomodaram, mas são detalhes que provavelmente só são levantados pela época em que vivemos, mas que se fosse uma mulher da época, “entenderia”, ou não… para exemplificar temos emoções dúbias da Jane, codependência… enfim, nada que tire a grandiosidade da obra.

Preciso ainda falar sobre a edição linda da Principis, diagramação com espaçamento e fonte confortáveis, mancha de qualidade, tudo está muito bonito.

Fica aqui essa super dica de leitura. Vou torcer para ter despertado a tua curiosidade e que assim como eu, você leia e goste muito. Até a próxima! Bye.

  • Jane Eyre
  • Autor: Charlotte Brontë
  • Tradução: Patricia N. Rasmussen
  • Ano: 2021
  • Editora: Principis
  • Páginas: 576
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