Ano passado tive o prazer de conhecer a escrita vampírica da senhora Rice no primeiro volume de sua saga de maior destaque: Entrevista com o Vampiro. E que leitura empolgante essa foi! Recomendo a leitura deste e inclusive, abro um parêntese para o filme de 1994 dirigido por Neil Jordan com Tom Cruise (Lestat de Lioncourt), Brad Pitt (Louis de Pointe du Lac) e Kirsten Dunst (Claudia) que encarnaram com perfeição seus respectivos personagens, mostrando ao espectador, com maior grau de fidelidade em comparação à outras adaptações literárias, aquilo que encontramos nas páginas.

O livro funciona perfeitamente bem como uma leitura única, mas a série d’As Crônicas Vampirescas é composta por 15 volumes – história é o que não falta! – e agora com a leitura finalizada desse segundo livro, O Vampiro Lestat, que expande o horizonte repleto de segredos sombrios do, muitas vezes, amado e, outras vezes, odiado protagonista que dá seu nome ao relato, me sinto no dever de sorver até a última gota dessa jornada proposta por miss Rice.

Mas cuidado!

Ao embarcar neste tomo você corre o risco de sentir sua temperatura subir ao se ver almejando, amaldiçoando, desejando e até mesmo fantasiando teorias e hipóteses do que aconteceu, do que viria a acontecer e do que você gostaria que acontecesse ao longo da história. Além de poder conter spoilers do primeiro volume.

O Vampiro Lestat, como o próprio título induz, nos apresenta em destaque o aristocrata francês numa espécie de autobiografia onde somos levados desde os anos 80, época de seu despertar ou ressureição, com o romantismo pós-punk e a cultura pop em evidência, passeando por suas memórias humanas às vésperas da Revolução Francesa, seu ingresso, ainda como mortal, no mundo cênico na Paris conturbada e ainda assolada por casos da peste negra até a sua iniciação traumática na imortalidade pelo vampiro ancião Magnus que mais parecia ter saído do trágico romance alemão de Goethe e, por último, de volta ao presente em Nova Orleans.

Sétimo filho em uma família de nobres donos de terras em Auvergne, região montanhosa da França do século XVIII, onde o prestígio e a remanescente riqueza pareciam envolver unicamente os filhos mais velhos, sobrava-lhe apenas o amor de sua mãe – que, por diversas vezes parecia se confundir e beirar o complexo de Édipo, onde o filho passa a amar Gabrielle como mulher, buscando até mesmo substituir o papel do pai/marido – e seu desejo de mergulhar no teatro e absorver as benesses da literatura e demais artes, além de continuar com suas caçadas nas florestas da região.

O livro é dividido em partes que melhor destacam os determinados momentos de sua vida humana e, logo em seguida, vampírica, a narrativa faz vários paralelos históricos como a caça às bruxas na Inquisição, a Queda da Bastilha, a já mencionada Revolução Francesa… bem como traz diversas referências à nomes, lugares e acontecimentos que se provariam de suma importância na formação de Lestat, imortalizado na glória de seus 21 anos.

Ao longo da leitura conheceremos uma versão diferente, intrincada, sedutora, sonhadora e ainda mais imponente que a apresentada por Louis em Entrevista. Lestat encarna com perfeição o perfil de rock star ao acordar de sua “soneca” reparadora após os conturbados eventos relatados no livro anterior e nada mais rockn roll que ser trazido para o mundo dos vivos pela barulhenta e vibrante união dos solos de guitarra e vozes que viriam a compor sua banda, e em seguida ter o seu coração mais uma vez partido ao descobrir que é o objeto central e, em sua mente, injustiçado no tête-à-tête de seu amado Louis com um mero e mortal jornalista. A partir daí seu grande plano é traçado, cujo foco é revelar ao mundo a existência dos vampiros – basicamente a única regra que jamais deveria ser quebrada ou severas consequências assolariam aquele que a descumprisse – por meio da música, com videoclipes na MTV, filmes, entrevistas, a escrita de seu livro de memórias, artigos de divulgação e campanhas de marketing… tal qual uma verdadeira celebridade em seu intoxicante ápice.

Não foram poucas as vezes que senti compaixão pela vida mortal d’O Vampiro Lestat, com sua sede por conhecimento nunca incentivada, busca por aceitação familiar e suas tentativas de se encontrar em um mundo que mudava com mais velocidade do que se poderia acompanhar. Contudo, apesar dele se sentir irritado pelas descrições de sua personalidade sanguinária e egocêntrica feitas por Louis, são notáveis vários momentos em que tais traços emergem no seu eu humano, ainda que superficialmente em comparação aos seus séculos como vampiro, me fazendo experimentar também certos níveis de desprezo pelo personagem e suas atitudes.

E se exerce algum poder de atração na mente dos homens é apenas porque a imaginação humana é um lugar secreto de lembranças primitivas e desejos inconfessáveis. A mente de cada homem é um Jardim Selvagem, para usar sua expressão, no qual todos os tipos de criaturas surgem e sucumbem, cânticos são entoados e coisas são imaginadas, sendo no final condenadas e repudiadas.

É nessa seara entre amor e ódio que Anne Rice trabalha seu dom ao fisgar com distinção o leitor e prendê-lo até o final através da passagem dos anos e explorando os sentimentos conflitantes do próprio Lestat, bem como daqueles que lhe são mais queridos. O amor para o personagem, qualquer que possa ser sua forma, desde o maternal até suas amizades, paixões e ídolos, parece sempre adotar um caráter ambíguo e, muitas vezes, ele próprio se vê entre o incesto, adultério e a homo afetividade – que já havia transparecido em Entrevista com o Vampiro no seu conturbado relacionamento com Louis.

Mas o que faz d’O Vampiro Lestat um dos melhores livros vampirescos já escritos? Para os fãs dos sugadores de sangue, e aqueles que já tiveram contato com o primeiro volume da série, a sensualidade intrínseca nos personagens permanece em evidência, a história adquire um escopo mais abrangente com pitadas de inocência e impetuosidade presentes na juventude mortal de Lestat que, apesar de suas dificuldades humanas e do que viria a se tornar como vampiro, possuía uma moralidade relativamente coesa, os tons de mistério que permeiam as entrelinhas onde nosso anti-herói banca o detetive em sua jornada para encontrar outros vampiros ao se ver sozinho em um admirável e cruel mundo novo, suas trágicas escolhas de companhias e todo o misticismo que sempre parece impregnar qualquer lenda vampírica… Tais elementos foram tão belamente trabalhados por Anne Rice que é praticamente impossível largar o livro até sua leitura ser concluída.

Se em Entrevista com o Vampiro a autora nos cativa, neste segundo volume a mortalidade de Lestat, os encontros com outros vampiros – especialmente Marius e, o familiar, Armand – as lendas sussurradas nas criptas de Paris, o balé intoxicante no Teatro dos Vampiros, a loucura e fanatismo das almas condenadas de outros sanguessugas, os passeios pela antiguidade – como os povos Celtas, o Antigo Egito e o Império Romano – concluem a missão de prender o leitor à saga. Dito isso, agora tento você com o maior mistério – e segredo – presente nesta atraente narrativa: a presença d’Aqueles que Devem ser Preservados, os primeiros vampiros, e o gancho para o próximo volume d’As Crônicas Vampirescas.

E um estranho pensamento me ocorreu, o de que a luz do Inferno deveria ser tão brilhante quanto a luz do sol, e seria a única luz que eu veria de novo.

Envolvente como uma boa e velha canção de heavy metal, com diversas referências a obras tão icônicas quanto esta que vos falo, O Vampiro Lestat entrará para a sua lista de leituras sem demoras.

Desde o ano passado a editora Rocco vem relançando a coleção com capas escuras, minimalistas, aveludadas, destacando em metálico o título do livro e um símbolo que prontamente traduz o conteúdo interno, além da presença do clássico e glamoroso fitilho de cetim vermelho, páginas amareladas para uma leitura mais agradável e novas traduções. Particularmente mal vejo a hora de ter todas as novas edições reunidas na estante e, reza a lenda, que ainda esse ano a editora lançará com a mesma qualidade e cuidado o terceiro volume da série intitulado A Rainha dos Condenados. Ansiosos? Sei que eu estou!

  • The Vampire Lestat
  • Autor: Anne Rice
  • Tradução: Reinaldo Guarany
  • Ano: 2021
  • Editora: Editora Rocco
  • Páginas: 576
  • Amazon

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