The Vow | Crítica

15 out, 2021 Por Biia Rozante

Mesmo que você nunca tenha ouvido falar de The Vow, provavelmente em algum momento você se deparou com a noticia de que a atriz Allison Mack, que interpretava a Chloe da série Smallville, foi presa acusada de tráfico e escravizar mulheres. Pois bem, a série de True Crime, da HBO, dividida em nove episódios, conta a história da NIXVM uma empresa de marketing multinível, ou seja, pirâmide, fundada pelo empresário Keith Raniere, que se autodeclara mega inteligente, com um QI elevado. Que inicialmente era um programa de desenvolvimento pessoal, uma espécie de grupo focado no crescimento e amadurecimento das pessoas, mas que ocultava em seu interior uma seita sexual.

Quem nunca se sentiu seduzido por frases de impacto? Pela promessa de autoconhecimento capaz de transformar a forma como você se enxerga e toma as decisões em sua vida? Acreditar em si, no seu potencial, sem temer as adversidades ou obstáculos? Quem nunca buscou formas de romper barreiras, encarar seus medos e vencer? Exatamente, engana-se quem pensa que alguém está livre destes questionamentos, é da nossa natureza buscar nosso lugar e tentar compreender o propósito da nossa existência e formas de alcançar o sucesso, seja pessoal ou profissional. E é com esse discurso, que Keith Raniere, atraia seus “clientes”, parceiros, colaboradores, participantes, para sua empresa NIXVM. Os fazendo acreditar que se tratava de uma empresa de autoajuda, eficaz em seus resultados, os seduzindo em suas fraquezas.

E quanto mais as pessoas se envolviam e participavam, quanto mais ativas elas se mostravam, mais elas cresciam no grupo, alcançando níveis de sucesso, pontuados por faixas de diferentes cores e quantidade de listras. Essas pessoas por sua vez, ficavam responsáveis por encontrar e recrutar novas pessoas, e com isso galgar cargos, criar seus próprios programas e compartilhar seus conhecimentos. Ao ponto de as pessoas perderem a noção do que realmente se tratava a ideia inicial, e passarem a investir dinheiro e tempo, sem um retorno de verdade, se distanciando cada vez mais de suas vidas reais, deixando para trás seus objetivos, suas carreiras, cada vez mais presos na teia que a empresa teceu e sob a influência sedutora de um líder que sabia exatamente o que estava fazendo. E acredite, não é difícil cair no discurso. E você vai poder confirmar isso diante de todos os depoimentos gravados tanto dos líderes, quanto dos participantes da seita.

Porém, a parte mais doentia e tensa da série e também o ponto realmente alto dela, é quando temos o episódio que foca na atriz Allison Mack. É perceptível o quanto ela venera Keith, e o tem como um “herói”, um ser superior ao qual ela seguiria cegamente. Aqui conhecemos uma sociedade secreta dento da NIXVM, em que ambos Allison e Keith atuavam como mestres, a DOS, que visava atuar como uma organização voltada somente para mulheres. Em ajudar essas mulheres, para que elas pudessem alcançar empoderamento, seu potencial completo, mas que na verdade as escravizava e marcava a sua pele com ferro quente. A marca era uma junção do nome de Allison e Keith e era deixada próxima as virilhas das “escravas”. Cada mestre tinha como intuito recrutar novas escravas, com o tempo essas escravas se tornariam mestres e recrutariam outras escravas, uma constante, uma verdadeira pirâmide de poder e abuso.

Marca que possui a junção do nome de Allison e Keith

O horror de tudo isso, está no fato de como a vida dessas mulheres eram controladas. Elas precisavam pedir autorização para absolutamente tudo, ir ao banheiro, dormir, beber água e toda e qualquer atividade, por mais simples e corriqueira que fosse. Suas comidas eram objeto de controle, uma vez que elas só podiam ingerir 700 calorias por dia. E até material comprometedor – Fotos nuas, vídeos, reclamações da família -, era exigido, como um passaporte de entrada. Mas na verdade era uma junção de provas, que os mestres, poderiam usar contra as próprias participantes, uma maneira de mantê-las sob controle. E acreditem, eles alegavam que até para isso existia um propósito.

A responsável por trazer esse esquema à tona, é uma das pessoas que se juntou para desmanchar esse esquema, Sarah Edmonson, que conseguiu encontrar um momento de lucidez e começou a tentar desmanchar essa barbárie. Denunciando que as reais intenções da organização na verdade, era recrutar mulheres para escravizá-las e torna-las servas de Allison e Keith.

Como mencionei Sarah, era uma das integrantes de um grupo que fizeram como meta destruir essa organização mundial. E eles foram de fato cruciais para isso. Eles realizam investigações, coletaram provas e entregaram esse material para periódicos importantes dos Estados Unidos. E acompanhar essa trajetória é no mínimo muito emocionante, assim como, angustiante. E quando o plano dá certo e Keith é capturado, nós só conseguimos comemorar junto. É um alívio.

A imagem imaculada de Keith começa a ruir, seus discursos motivacionais que por vezes beira o exagero, e ficam chatos, passam a fazer todo o sentido, porque é quando nos damos conta do quanto eles eram precisos para a manipulação, para atrair, capturar e prender aqueles mais vulneráveis, os desviando da verdade e os colando em caixas. E outro ponto crucial é que quando desmascarado, Keith revela sua verdadeira face, trazendo à tona seus pensamentos mais sombrios sobre as mulheres, seu desprezo, sua prepotência e arrogância. E olha… é de revirar o estomago. Um ser cruel e vil.

Veja o trailer da série

O documentário é interessante, traz à tona várias imagines, arquivos da empresa, depoimentos, e registros de toda a investigação, assim como, o julgamento de Keith, que pelo bem do universo, foi condenado a 120 anos de prisão.

A série levanta ótimos questionamentos, nos obrigando a pensar se em algum momento, nós mesmo não cairíamos em um desses discursos. Tentando entender se realmente somente o Keith era culpado, ou se as pessoas que sob sua direção também eram cruéis se mereciam ser julgados e condenados como ele – alguns de fato foram. É complexo, intenso e apavorante. É a manipulação sendo exercitada da maneira mais certeira. É usar as vulnerabilidades, a dor, as inseguranças, medos, anseios e receios, contra as próprias pessoas. É desumano, é doentio, é vida real.

  • The Vow
  • Lançamento: 2020
  • Criado por: Karim Amer, Jehane Noujaim
  • Com: Anthony Ames, Sarah Edmondson, Catherine Oxenberg
  • Gênero: Documentário, Crime
  • Duração: 9 episódios - 60 minutos

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