Sentei em frente ao computador para alinhar pensamentos, reordenar palavras e abordar o encanto contido por entre as páginas de Ahmed e as Máquinas Esquecidas. Porém, após algumas frases desconexas e tentativas visivelmente tortuosas, me percebi refletindo sobre as inusitadas maneiras com que Ray Bradbury trabalha temáticas complexas em narrativas que seguem desde a mais peculiar distopia até o mais adorável conto infantil.

Nascido nos Estado Unidos, em uma pequena cidade do estado de Illinois, Ray Bradbury foi uma chama literária que nunca se apagou, queimando para sempre em toda e cada frase impressa nos livros que narram as maravilhosas, estranhas, intricadas e assombrosas histórias que produziu ao longo dos 92 anos que conosco conviveu neste caótico e mágico planeta que nomeamos Terra. Escritor de mente inquieta, vidente às avessas, cientista maluco e verdadeiro artista, Ray Bradbury expressa em sua obra uma criticidade, uma profundidade de questionamento e reflexão que, em toda a minha trajetória enquanto leitora, passaram a tanto me agradar!

A profundidade da essência humana, a extensão de nossos empreendimentos, as infinitas possibilidades proporcionadas por nosso curioso e criativo intelecto, as imprevisíveis maneiras com que acontecimentos, personalidades e elementos da histórica trajetória humana se relacionam e transformam nosso destino se inserem e moldam toda e cada narrativa construída pelas habilidosas mãos do escritor. Mesmo quando um garotinho se perde no frio deserto e, em desespero, derrama lágrimas enquanto clama por um direcionamento, por uma luz que revele o caminho para a caravana que o acompanhava, para seu lar e família, observamos as mais encantadoras e intrincadas reflexões sobre a criatividade humana, sobre todas as realidades possíveis – contidas nos sonhos que ousamos sonhar, que nos obrigam a descartar, que carregamos protegidos em nossos corações.

“Chamamos isso de sonho. Pois lembrar reconstrói o passado. Imaginar constrói o futuro.”

Quando Ahmed, o garotinho perdido, desperta com suas lágrimas e esperança luminosa o poderoso gigante Gonn-Bem-Allah, personagens e leitores ingressam em uma aventura por entre os domínios dos sonhos, da criatividade e imaginação, das infinitas possibilidades de tudo aquilo que um dia existiu no passado presente e futuro, de todos aqueles que um dia viveram, de todos aqueles que um dia sonharam e ousaram se arriscar, de todos aqueles que abandonaram as encantadoras visões do impossível para seguir uma cômoda vida na materialidade concreta que somente se consolidou pois outro ser, localizado em algum espaço temporal desconhecido, buscou transformar seus sonhos em realidade!

A fantástica aventura de Ahmed, relatada por um narrador que dos céus observa com atenção, explora e apresenta para as crianças – e adultos também – o valor e preciosidade que é sonhar e acreditar naqueles planos assombrosos, naqueles projetos mirabolantes, naqueles caminhos incertos, contidos e revelados por nossos corações.

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Com uma harmonia curiosa entre complexidade e simplicidade, Ray Bradbury nos faz pensar em tudo aquilo que se encontra entre os limites de tempo e espaço, em tudo aquilo que um dia deixou de ser impossibilidade e se transformou em materialidade, modificando para sempre o destino e as vidas de seres espalhados por todos os cantos do planeta. Aqui refletimos sobre a coragem de alguns em caminhar por caminhos impensáveis, mas também sobre a ousadia de outros em tentar desanimar ou mesmo desencaminhar as mentes incansáveis. Aqui encontramos, queimando forte e luminosa, a chama de Ray Bradbury! Encontramos as mensagens, temáticas e elementos que tantas vezes nos encantaram, que tantas vezes nos preencheram com a certeza de que sempre existirão percursos alternativos a percorrer, sempre existirá uma oportunidade de retomar o rumo das coisas, de manter aquela chama de bondade, esperança e humanidade acessa!

Ilustrado por Jefferson Costa, traduzido por Samir Machado de Machado e publicado em território brasileiro por nossa querida Biblioteca Azul, Ahmed e as Máquinas Esquecidas é um livro sobre uma porção considerável de coisas adoráveis, assombrosas, encantadoras e inusitadas. É o tipo de leitura que promove, se não a consolidação, a construção do pensamento e consciência crítica do leitor, seja este quem for, da idade que for e localizado em qualquer ponto espaço temporal. Exemplo ou lembrança perfeita da magia contida nas páginas de um livro… mas também da mágica produzida pela criativa mente humana, a narrativa emociona, aquece o coração e nos permite relembrar a importância da coragem e dos sonhos em meio a uma sociedade que tantas e tantas vezes, e de tantas e tantas maneiras, tenta desencaminhar nossos projetos maravilhosos de sonhos (im)possíveis!

  • Ahmed and the Oblivion Machines
  • Autor: Ray Bradbury
  • Tradução: Samir Machado de Machado
  • Ano: 2021
  • Editora: Biblioteca Azul
  • Páginas: 64
  • Amazon

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