Maria Altamira | Maria José Silveira

08 jun, 2022 Por Viviane Papis

Apesar de não ter entrado em contato com o livro físico, a primeira coisa que qualquer leitor de Maria Altamira, autoria de Maria José Silveira, tem a dizer sobre a obra é o projeto gráfico; desde a imagem de capa até o tipo da folha utilizada. Soube então que havia me deparado com uma nova literatura nunca antes vista. Justamente por, mesmo sem querer, julgarmos livros pela capa, planejada com muito carinho pela equipe da editora Instante, “Maria Altamira” já esboça seu lugar de questionamento, transformação, movimentação e contextualização na América do Sul no primeiro contato que se tem ao pegar o livro nas mãos.

Foto: Editora Instante

E assim fui adentrando essa obra que a cada página virada me deslumbrava tamanha responsabilidade ter de levar essa leitura em frente. Após esse primeiro contato contundente, fui inserida numa avalanche, literal e narrativa, ao acompanhar a jornada da Alelí Culebra, jovem peruana que se viu posta em constante movimento ao longo da América do Sul após perder família e laços afetivos no seu povoado no desastre de Yungay.

Na primeira metade da narrativa, os capítulos são curtos e se centram em cenas do cotidiano de Alelí como nômade que nada conhece as entranhas dessa América Latina que aos poucos reconhece como sua. Senti-me estranhada como a memória fragmentada da Alelí que fugiu do enorme trauma que passou e foi submetida por ser a jovem mulher indefesa que inicialmente se mostrou na sua história. E ainda que estranhada, a dureza da vida de Alelí parecia se contrabalancear com seus aprendizados (como tocar charango) e diante as pessoas que se padeciam com sua quietude e martírio, marcado em toda sua pele.

Foto: Editora Instante

A jornada de Alelí parece tomar seu rumo final quando conhece o Juruna de nome Manuel, indígena do Xingu que é capturado pela figura peculiar da peruana e a convence a morar consigo e o povo Yudjá. Com ele, Alelí retoma a vida que havia deixado nos escombros de Yungay e passa a criar raízes que nunca havia imaginado que conseguiria. Com Manuel, Alelí descobre a vida dos povos originários do Xingu e concebe uma herdeira dessa história de força e resistência. No entanto, como na dura vida que a levou ao povoado, Alelí se vê impelida a fugir e acaba deixando sua filha Juruna (mais tarde Maria Altamira) aos cuidados de Mãe Chica, de Altamira, no Pará.

A partir de então, a narrativa toma um rumo e ritmo completamente diferente. Agora conhecedora das paisagens e personalidades que compõem as estradas dessa enorme América ainda sofrendo dos horrores das diferentes ditaduras a que foi submetida, estacionei em Altamira com a protagonista que vem defender seu lugar como indígena e nativa da belíssima e histórica região do Xingu e sua relevância de sobrevivência aos povos originários e ribeirinhos. Vivi os anos de amadurecimento de Maria Altamira como uma local; aqui está o destaque do livro de fazer vivenciar esses lugares como se lá estivesse e fosse testemunha do que se sucedeu com o passar dos anos e de ação do homem.

Tecendo as história de Alelí, navegando pelo Brasil afora, e Maria Altamira, lutando pela preservação de sua memória e dos povos do Xingu contra a construção da usina de Belo Monte, a autora constrói a relação de uma mãe e sua filha com o local em que se encontram, que teimam em permanecer e que brigam por pertencer. A dualidade dessas personagens, da nômade e da local, do movimento e do enraizamento, se expressa na escrita e no ritmo que a leitura passa a tomar com o protagonismo de Maria Altamira, mais lenta e demorada, mais contextualizada e marcada de encontros com lutas sociais dos indígenas e do movimento sem-teto. Por Maria Altamira tanto buscar construir vínculos e se consolidar num território que sinta-se pertencente, como leitora me senti demorar nas suas vivências e lutas, seja na Altamira pouco a pouco tomada do “avanço civilizatório” de Belo Monte ou na efervescente São Paulo onde não se demora muito.

… se eu continuasse assim, ia me dar mal, que eu tinha que endurecer meu coração pra poder viver aqui, mas achei tão triste mãe! Ter que endurecer o coração.

Foto: Editora Instante

Maria Altamira é um manifesto de homenagem àqueles que se perdem e desterram por ações da natureza e do homem. A obra voltou meu olhar a demandas sociais com precisão didática mas muito natural e íntegra à história, costuradas na narrativa sem desviar do enredo principal e voltado para como essas personagens interagem e são afetadas pelas lutas sociais. A autora denuncia a violência e o descaso do Estado aos povos originários, sempre ameaçados pelos pistoleiros, fazendeiros e transformações da natureza, colocando no papel a crua realidade do que se passou (e permanece a acontecer) às comunidades do Xingu. A repetição e declaração enfática pode deixar pouco espaço de reflexão para alguns leitores, mas na minha experiência de leitura, a obra se mostrou cirúrgica em me transformar em cúmplice de tamanho sofrimento e tentativa de persistência de um povo cuja voz é sempre silenciada e está sempre lutando para garantir seus direitos de viver e pertencer.

Há muito que dizer de uma história repleta de temáticas e sentimentos. O que começa como uma narrativa de uma mãe andina e sua filha indígena, se centra nos seus encontros e desencontros perpassados pelas tragédias – sociais e ambientais – características da América Latina. Assim, um livro que tanto se esforça em contextualizar os locais que a narrativa se passa, captura os sentimentos de vulnerabilidade e de violências que o torna e sempre tornará atual.

  • Maria Altamira
  • Autor: Maria José Silveira
  • Tradução: -
  • Ano: 2020
  • Editora: Instante
  • Páginas: 280
  • Amazon

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