Título original: Crosstalk
Autora: Connie
Willis
Ano: 2018
Editora: Suma
Páginas: 463
Imagine-se
em um futuro não tão distante, um ponto específico no espaço-tempo, na
trajetória vacilante da humanidade, onde o estágio atual da tecnologia encontra
terreno fértil para progredir, avançar, desenvolver-se em aparatos, máquinas e
conceitos que, hoje, ousam avançar em breves e pequenos passos. 

Imagine uma
sociedade absurdamente conectada, onde o acesso ao meio virtual é regra e o
mercado cria, a todo o momento, novas necessidades tecnológicas, novos aparatos
cujas funções facilitaram sua vida, permitindo maior conexão com o ambiente
virtual, maiores possibilidades de contato. Agora, imagine que, na busca por
estabelecer conexões e necessidades, o mercado lhe ofereça um dispositivo capaz
de elevar a empatia entre casais, permitir que você, ser apaixonado, sinta as
emoções de seu parceiro, elevando, portanto, a conexão entre si.

É em
meio a esse contexto de absurda conexão, comunicação constante proporcionada
pelo milagre da internet, que conhecemos Briddey, funcionária de destaque em
uma empresa de dispositivos móveis, smartphones, aparelhos eletrônicos que,
provavelmente, você não precisa em sua vida. A bela, ruiva, cem por cento irlandesa e
nada esperta Briddey, é convidada por Trent, seu namorado e chefe, para
instalar um EED, aquele dispositivo bacana que eleva a empatia entre casais,
permitindo o estabelecimento de uma conexão ainda maior entre os apaixonados de
plantão.
A
cirurgia é realizada, Briddey aguarda na sala de recuperação – mas estamos falando
de uma obra cujo pano de fundo interliga-se aos domínios da ficção científica, portanto,
não demora muito para que a adorável e estritamente confiável tecnologia
apresente seu princípio de imprevisibilidade, resultando em uma Briddey
assustada, confusa, andando pelos corredores do hospital e, como se não
bastasse, ouvindo a voz de um colega de trabalho em sua mente.
Apesar
da contextualização tecnológica, das breves e superficiais críticas sociais,
Interferências trata-se de uma comédia romântica. O livro é extremamente fiel a
clássica fórmula estabelecida pelo gênero – que, infelizmente, não posso
explorar ao longo desta resenha por conter em sua essência diversos spoilers da
obra – apresentando um enredo previsível, clímax estável e desfecho fofinho
que, embora estivesse escancarado nas primeiras vinto e cinco páginas, ainda é capaz de te
tirar um sorriso bobo ao finalizar a leitura.
A
personagem principal fundamenta-se nas bases da antiga, polêmica e, fortemente
debatida, donzela em perigo. Desconfiada, boba e constantemente cometendo erros,
a personagem ignora o namorado relapso e oportunista; defende os moldes de uma
sociedade falha, onde mais vale atualizar-se tecnologicamente, vindo a sofrer
com a constante conexão virtual, do que partilhar da realidade mágica de uma
vida onde o verdadeiro contato humano prevalece. Briddey, na provável necessidade
de agradar, de não contradizer, não entrar em conflito, prefere ignorar
chamadas, produzir desculpas ou fugir de colegas e familiares intrometidos, da
mesma forma, desmerece e desacredita o único que lhe estende a mão e propõem-se
a ajudar.
Não se trata, porém, de criticar a personalidade
de uma personagem feminina, uma vez que esta segue, claramente, os moldes da
donzela indefesa, além das regras estabelecidas pela própria comédia romântica.
Mas sim, perceber as nuances entre ações e consequências; entre a opressão de
uma sociedade fortemente baseada no avanço e crença na tecnologia e a liberdade
de desconectar-se. Trata-se de reconhecer a linha tênue entre abuso e
intromissão, de admitir que nossa sociedade, assim como grande parte dos
personagens deste livro, incluindo a própria Briddey, não refletem e não são
capazes de formular um pensamento crítico para com os mais diversos aspectos e,
isso, embora não seja explorado, é verdadeiramente assustador.
Connie
Willis
constrói uma comédia romântica impecavelmente estruturada, clássica em
sua essência, previsível, adorável e fofa, como toda história do gênero deve
ser. A obra peca, porém, ao desvincular-se das fortes críticas sociais, características
de uma boa ficção científica. Decepciona quando retira do contexto tecnológico
qualquer culpa, falha, dívida ou ideologia que impregna todo e qualquer aparato
produzido. 
A ambiguidade de interpretações, porém, ressalta a maior falha desta
obra, uma vez que se perdem debates importantíssimos em meio à confusão perante nuances entre intromissão e abuso; passividade e características de
personalidade, bem como, a propagação da neutralidade tecnológica. Entre erros e acertos, Interferências destaca-se pela tentativa de unir ficção científica e informações históricas ao enredo de chick lit, apresentando as falhas comuns de uma autora que pretende carregar mais do que pode suportar, demonstrando que autores consagrados também podem errar.

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