Grace Harris nunca pensou que chegaria nesse ponto de sua vida. Um casamento desfeito, um coração estilhaçado e um porta-malas cheio de bagagens. É assim que ela volta para Chester, a cidade onde nasceu, e onde aprendeu que o casamento é o bem mais precioso que uma mulher pode conquistar. Ela gostaria de se esconder do mundo, de esconder de todos o quanto fracassou como esposa, como mãe e inevitavelmente como filha.

Ela não sabe como contar para a família que o marido a deixou, não sabe como enfrentar o desgosto dos pais que administram a única igreja da região, não sabe como lidar com todas aquelas pessoas entediadas demais com a própria vida. Afinal, ela é a filha do pastor e todos os olhos estão voltados para sua infelicidade. Não ajuda em nada que sua mãe a culpe pela separação, e que as velhas senhoras da congregação façam comentários maldosos quando pensam que ela não está escutando. E é exatamente nesse momento que Grace percebe que perdeu total controle sobre si mesma, e somente uma pessoa é capaz de mantê-la na superfície… o rebelde, lindo e improvável Jackson Emery.

Jackson Emery já tem dramas demais em sua vida. A morte da mãe, o pai alcoólatra, uma cidade que o odeia… É isso. Ele está em reabilitação, mas não sabe até quando. Ele precisa anestesiar a dor insistente que nunca abandona sua mente. Seu velho cão Tucker é a companhia que precisa, e levá-lo até o parque é a única rotina que parece colocar um pouco de sanidade em sua vida. Até ela aparecer. Um furacão de lágrimas e bagunça. É assim que Jackson se refere a Grace Harris.

Quando ele foi embora, eu o agradeci em silêncio. Depois de uma noite me afogando, foi a ovelha negra da cidade que me ajudou a me erguer para tomar um pouco de ar.

Ela chega na cidade com um carro velho demais para ser considerado seguro, com aqueles olhos azuis que parecem sorrir mesmo atrás da tristeza, e com indicações literárias estranhas demais para uma garota… É, ele precisa consertar bem mais do que um automóvel pelo jeito. Mas ela ainda é uma Harris, filha das pessoas mais odiosas de Chester. E ainda está ferida demais para uma aventura. Mas conversar com ela parece aliviar o aperto esmagador que ele tem no peito, ele não sabe como se deixou levar por aquelas conversas inofensivas, mas agora ele precisa de um pouco mais de Grace. Mais sorrisos, mais toques, quem sabe um abraço, quem sabe um beijo. Não tem jeito de isso acabar bem, mas ele nunca foi do tipo que segue regras.


É fato que os romances literários em sua maioria, são feitos de cenas perfeitas e clichês demais para serem considerados reais, e é exatamente por isso que amo a escrita da Brittainy. Por que apesar de ela falar de paixões avassaladoras e de amores utópicos, ela mescla doses perfeitas da boa e dolorosa realidade. Após ler algumas de suas obras, encontro em Vergonha um novo título para favoritar.

Eu já me senti exatamente como Grace, a vida adulta não é tão fácil nem tão brilhante quanto a gente achava que fosse e os momentos para chorar se repetiram em mais de uma vez. Mas o que a gente precisa as vezes é um amigo para rir e um cachorro para afagar e coragem o suficiente para se lançar em uma nova aventura. Afinal o que seria de nós sem os recomeços? E essa é a lição que fica quando você vira a última página. Tenham esperança. O amor acontece quando a gente menos espera e vêm de lugares inimagináveis. Nunca antes um livro de romance fez tanto sentido pra mim e só gostaria de expressar gratidão por ter a chance de conhecer esse casal tão perfeito em suas imperfeições, que me ensinou que o felizes para sempre existe logo após a tempestade.

Grace é uma mulher forte apesar do que possamos pensar a principio. Lágrimas nunca foram símbolo de fraqueza, assim como palavras duras não significam que aquele alguém não se importa. Nossa protagonista pensou que não suportaria mais uma decepção após tantas outras que vieram antes dessa, dores que não consigo nem calcular em minha vida pacata e simples. Posso dizer apenas que é o tipo de mágoa forte o bastante para machucar mesmo a alma mais resiliente. Grace segurou as pontas, mas seu companheiro não esteve ao seu lado quando ela mais precisou, a distância entre os dois tomou rumos desastrosos e agora ela carrega mais essa culpa. Talvez se ela tivesse chorado menos, se ela tivesse sido mais paciente, se ela tivesse guardado as dores para si… É inconcebível pra mim, que um casamento se resuma apenas a bons momentos. Mas Grace foi treinada para ser esse tipo de mulher e enquanto lê você torce desesperadamente para que ela veja a si mesma com mais misericórdia e carinho, sem todas aquelas cobranças que colocaram em cima dela.

Tudo bem amar alguém mesmo que essa pessoa tenha lhe feito muito mal. Você não pode fingir que seus sentimentos não existem porque tem medo do que esses sentimentos possam significar. Às vezes, a coisa mais difícil do mundo é amar alguém que partiu seu coração.

Jackson tem todas as características de um bad boy, exceto que ele não é nada disso. Na verdade ele está mais para uma alma machucada do que para um rebelde sem causa. E é isso que gosto nesse personagem. Que sua história é tão profunda e cheia de dores quanto a de Grace, que eles se conectem não apenas com o corpo, mas que suas experiências de vida os liguem de maneiras que ele não conseguem entender a princípio. Jackson lidou com o abandono da mãe ao mesmo tempo em que precisou lidar com sua morte. Como um garotinho assimila que seu amor não foi forte o bastante para fazer a mãe ficar? A primeira mulher de sua vida o deixou. O que ele poderia ter feito de diferente para que ela ficasse um pouco mais? E se ele fosse mais obediente? E se ele fizesse suas tarefas sem reclamar? Ele odeia o fato de não ter sido forte o bastante para segurar as lágrimas, ele odeia o fato de que precisou se refugiar nas drogas para superar todas as dores que não conseguiu lidar. A cidade o odeia tanto quanto ele mesmo se odeia e ele não sabe como ainda se mantém vivo um dia após o outro.

Quando ele e Grace se conhecem é como assistir em câmera lenta uma daquelas cenas de filmes da sessão da tarde que tanto amávamos. Garoto irrita garota e então a química fica imediatamente visível. E eu adoro que não tenha aquele amor barato e instantâneo que estraga qualquer enredo bem elaborado. Esse cuidado, de mostrar o envolvimento de Grace e Jackson aos poucos, respeitando todas as etapas de um sentimento verdadeiro, é o que faz essa história ser tão maravilhosa. Você percebe não está lendo apenas um livrinho de romance, mas entende que está consumindo uma obra cheia de magia, beleza e delicadeza. É como renovar a esperança nos relacionamentos. É ouvir os conselhos de uma amiga. É acreditar que o final feliz existe também fora das ficções.

Jackson cuidava daquele cachorro com muito amor. Eu não sabia que um homem como ele era capaz de ter tanto cuidado com algo. Seu amor era tranquilo, mas, ao mesmo tempo, evidente. O jeito como ele amava Tucker era o jeito como todo mundo deveria ser amado: incondicionalmente.

Falando sobre o personagens secundários, a mãe de Grace é uma antagonista perfeita em seu papel. Responsável por 50% da raiva que você vai sentir enquanto lê, e isso é muito considerando o tanto de gente odiosa que você vai encontrar enquanto vira as páginas desse livro. O ex-marido de Grace é um embuste de marca maior, mas vou deixar você ler e tirar as próprias conclusões e as pessoas da igreja, alguém me socorre que eu quase tive um ataque de nervos… Supostamente onde deveria haver mais amor, é onde há mais ódio e julgamentos. E quando você vê que essa mesma comunidade não moveu uma palha para ajudar Jackson e seu pai durante o luto, entende o motivo de ele ser tão bruto em relação a vida.

Eu dei cinco estrelas de avaliação para esse livro pois eu não mudaria absolutamente nada nele. E meu último ponto nessa resenha se refere ao desfecho, que não poderia ser descrito de nenhuma outra forma que não perfeito. Chega uma hora que é – eita atrás de eita – e você pensa que não tem como nada ali dar certo. Eu só senti isso quando li Colleen Hoover, pois a mulher adora um plot twist de arrancar os cabelos, mas a Britt aprendeu direitinho e me deixou literalmente de queixo caído, pois há uma redenção muito necessária por parte dos personagens. Eu gostei que o final foi tão lindo quanto real. Eu gostei que não houve uma cura mágica para certas coisas que você só vai entender lendo, e eu gostei que ao virar a última página você se despede com lágrimas nos olhos.

Pra mim esse é o papel da literatura. Mexer com a gente, brincar com as nossas emoções, criar em nós a sensação de felicidade, fazer renascer a crença no amor . E esse livro meus caros, cumpre com a premissa.

  • Disgrace
  • Autor: Brittainy C. Cherry
  • Tradução: Natalie Gerhardt
  • Ano: 2019
  • Editora: Grupo Editorial Record
  • Páginas: 420
  • Amazon

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