Gethen é um planeta peculiar. Seus habitantes, homens e mulheres, são um só, mas também nem um, nem outro. Sem definição de sexo, não existe neste planeta qualquer tipo de discriminação de gênero, porém Genly AI, protagonista e missionário, não consegue se desvencilhar dos preconceitos humanos. Isso pode colocar em risco a sua missão, a de convencer os governantes de Gethen a se unirem a uma força universal chamada Ekumen. Será que ele irá conseguir?

Uma história com uma visão extremamente utópica, a que não há qualquer forma de discriminação de gênero, sem dúvidas tinha que ter saído da mente brilhante de Ursula L. Le Guin. Publicado originalmente em 1969, A Mão Esquerda da Escuridão, não só garantiu prêmios como o Nebula e o Hugo para a autora, como também estabeleceu Le Guin como uma das maiores autoras da ficção científica.

Esta foi a minha primeira experiência com a autora e posso dizer que num primeiro momento, não sabia muito bem para onde ela estava me levando. Demorei para entender sua construção narrativa, mas quanto mais adentrada em seu universo, mas me surpreendia com toda a grandiosidade da leitura. Essa sem dúvidas é o tipo de obra que quanto mais se disseca, mais se torna melhor e agradeço o fato de ter a concluída em um clube de leitura, onde pude desenvolver um debate merecido para uma obra tão incrível.

Confira a resenha de A Curva do Sonho

Falando um pouco sobre a obra, gosto muito da forma que a autora desenvolveu Gethen, compartilhando detalhes de sua cultura e sociedade com o leitor, as ideologias que teoricamente são simples, se provam impossíveis num olhar humano do século XXI. Aqui é importante falar um pouco como funciona Gethen, e o olhar que os habitantes do planeta possuem sobre Genly. A barreira criada por suas culturas completamente diferentes será o termômetro para a história, pois sendo os gethenianos “ambissexuais” eles não têm confiança em Genly e até o acham um completo depravado, o que gera algumas passagens bem cômicas durante a leitura.

Explicando de uma forma bem resumida, os gethenianos só desenvolvem características sexuais no kemmer, período do mês que se tornam férteis. Neste período de cerca de 6 dias, conforme a necessidade, eles se tornam machos ou fêmeas. Como Genly é um homem, logo todos os getheniados acreditam que ele está sempre neste período. Interessante, não?

Imaginar tal realidade proporciona uma leitura intrigante, nos levando a reflexão sobre todas as ideias enraizadas que possuímos pela forma que a humanidade se moldou baseada no patriarcado. Nisso também é interessante notar o quanto a visão de Genly sobre esta sociedade vai se modificando conforme ele vai aprendendo sobre esta civilização com Estraven, ministro de Gethen que tenta ajudá-lo, mas acaba exilado. É este o personagem que demonstra qualidades estereotipadas femininas e masculina na mesma medida para Genly. Todos estes conflitos que se passa na cabeça de Genly é muito interessante e por vezes sobrepõe-se sobre o desenvolvimento da história, que se iniciou numa missão política entre povos.

Além de debates sobre sexo e gênero, A Mão Esquerda da Escuridão é considerada uma das primeiras ficções cientificas que abordará o feminismo (mesmo sobre um olhar mais sutil) e a androginia. Ele também explora vieses políticos e religiosos o que é muito interessante também, ou seja, é uma obra capaz de debater questões pertinentes que vão muito além das ditas características e crenças, é uma obra inteligente, narrada com atenção, delicadeza, mas com muita profundidade.

Ursula K. Le Guin criou uma sociedade intrigante, cheia de tabus enraizados por suas páginas, mas sob o olhar de um personagem que precisa muito entender como esta sociedade lida com o significado do masculino e do feminino. É simplesmente sensacional! Compreender que as questões de gênero nos delimitam tanto para a nossa evolução me entristece, ainda mais quando sabemos que demoraremos eras para dar um passo à frente quanto a esta questão. É por isso que lutamos contra as desigualdades e este é o livro perfeito para debater isso.

Eu recomendo muito a leitura e poderia ficar aqui horas falando sobre esta obra que é extremamente atemporal, mas apenas vou concluir dizendo que essa é a ficção científica que todos deveriam ler, uma leitura obrigatória para fazer muita gente refletir e repensar seus conceitos.

A Mão Esquerda da Escuridão faz parte do Ciclo de Hainish, um universo criado por Le Guin em 1964 do qual outras obras farão parte. No Brasil além de A Mão Esquerda da Escuridão, também faz parte desse universo Os Despossuídos, obra também publicada pela Aleph. A editora relançou a obra numa edição comemorativa de 50 anos, em capa dura, introdução da própria autora e de Neil Gaiman.

  • The Left Hand of Darkness
  • Autor: Ursula K. Le Guin
  • Tradução: Susana L. de Alexandria
  • Ano: 2019
  • Editora: Aleph
  • Páginas: 304
  • Amazon

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8 Comentários

  • Ana Paula Santos Moreira
    02 dezembro, 2019

    Esse livro é uma viagem sobre vários assuntos debatidos atualmente, creio que seja um debate aberto e nos da clareza sobre esses assuntos. Quero ler na próxima oportunidade.

  • Lily Viana
    01 dezembro, 2019

    Olá!
    Uma resenha incrível. A trama é bastante complexa e interessante. A forma como a autora abordou os temas sobre o gênero em relação a humanidade em frente a isso. Uma leitura que vale muito a pena ser lida.

    Meu blog:
    Tempos Literários

  • Samanta Samy
    30 novembro, 2019

    Gente, não curto muito ficção científica, mas que história sensacional (pelo menos, foi o que percebi através da resenha).
    E essa edição linda?!
    Impressionante como um livro de 1964 se mostra tão atual.
    Muito obrigada pela indicação, esse vai para a lista de desejados.
    Beijos!

  • ELIZETE SILVA
    30 novembro, 2019

    Olá! Muito doido saber que autora lá atrás já se propôs a discutir temas tão polêmicos e necessários, e também triste, se notarmos que, infelizmente, não evoluímos muito em relação a eles, essa versão parece estar lindíssima, fiquei ainda mais curiosa para conhecer a escrita da autora.

  • Giovanna Talamini
    30 novembro, 2019

    Olá!
    Que legal saber que em 1964 as mulheres já estavam discutindo sobre gênero em livros ficcionais. Fico feliz que a Aleph resgatou essa narrativa e fez uma versão tão linda.

  • Maria Alves
    30 novembro, 2019

    Achei uma leitura diferente, por não ter um sexo definido, digamos assim. É pra ficar pensando em como seria diferente se não desse tanta importância a isso na realidade. Fiquei querendo conhecer essas culturas diferentes criada pela autora, pelo visto ela conseguiu inovar com esse livro.

  • rudynalvacorreiasoares
    29 novembro, 2019

    Joi!
    Tive oportunidade de ler esse livro ainda na adolescência nos idos dos anos 80 e lembro que fiquei fascinada com toda aquela sociedade criada pela Úrsula. Imagina o impacto do livro na época, afinal, não havia toda a liberdade sexual que há hoje, ainda mais para as mulheres. E ela meio que previu o que poderia aontecer no século atual, não é?
    Acho a autora fantástica e é um livro que super vale a pena.
    cheirinhos
    Rudy

  • Angela Gabriel
    28 novembro, 2019

    Engraçado que isso de identidade de gênero parece que sempre existiu, só não era tão aberto antes como é hoje em dia. Falo engraçado, mas não é bem essa a palavra, triste, talvez? A humanidade sempre precisou aprender a ter algo chamado Respeito..
    Mas, vamos aos livros! É impossível, na minha opinião, viver num mundo seja ele qual for, sem levar algo de humano junto.
    E pelo que entendi, apesar de ficção científica não ser um gênero que eu entenda muito, foi isso que a autora quis mostrar. Que há humanidade, em qualquer situação!
    A Editora trouxe capas maravilhosas e com certeza, quero demais estes dois livros e oh, vou ficar no aguardo do terceiro..rs
    Beijo