Frank Li está em um tedioso limbo. Ele não é totalmente coreano, nem totalmente americano. As pessoas sempre esperam que ele saiba tudo sobre suas origens, mas a verdade é que ele não sabe nada. Os pais esperam que ele siga a tradição e se relacione apenas com moças coreanas, mas ele sabe que é impossível mandar no próprio coração. Ele não entende por qual motivo precisa viver sempre sob a ótica da perspectiva alheia. Seja isso, seja aquilo; e nunca o que ele mesmo já é.

Anda complicado lidar consigo mesmo e com as próprias emoções, mas quando a garota mais incrível da turma se mostra interessada por ele, tudo fica ainda mais problemático. Brit Means é engraçada, inteligente e linda. Porém isso jamais será o suficiente para que os pais a aceitem. Afinal, a irmã foi expulsa da família após decidir a própria vida e casar com um rapaz que os pais desaprovavam. Frank não tem a mínima vontade de lutar batalhas perdidas, então ele fará as coisas à sua própria maneira para conseguir namorar Brit.

Talvez ele precise mentir um pouco, talvez precise criar arranjos malucos com Joy Song que enfrenta um problema parecido ao esconder o namorado chinês dos pais tradicionalmente coreanos. Um namoro de mentira parece o plano perfeito. Eles podem sair juntos quando na verdade irão para destinos diferentes. Eles podem sorrir um para o outro na frente dos pais para tornar a mentira mais verídica. Segurar as mãos também pode ser necessário, e Joy parece realmente não se importar. Acontece que amar não é tão simples quanto se imagina e para um marinheiro inexperiente como Frank, o mar pode ser um pouco mais turbulento do que o esperado.

David Yoon fez algo incrível nesse livro. Ele pegou uma história simples e a transformou em uma jornada magnífica e envolvente. Eu pensei que essa leitura traria apenas mais um enredo adolescente bobo daqueles que a gente ama ler para matar o tempo. E sim, eu amei esse livro, porém ele trouxe uma experiência incrível de autoconhecimento e não apenas o entretenimento que eu estava esperando. A verdade é que a sinopse, por mais extensa que seja, jamais conseguirá expressar o quanto as questões de Frank são atuais e necessárias. Então começo essa resenha com um apelo sincero: dê uma chance para essa história e se deixe conquistar pela delicada escrita de David Yoon.

Há muito a dizer. Mas eu já disse tantas e tantas vezes que nem preciso mais dizer de fato. Agora só estou cansado de repetir. Nossos pais são racistas. Queria que as coisas fossem diferentes. Sinto saudade de Hanna.

Frank é um personagem tão carismático que é impossível não se deixar levar por seus pensamentos sempre tão conflituosos e reflexivos. Ele é um adolescente atípico. Não faz o tipo rabugento ou rebelde, gosta de estudar e não está preocupado demais com álcool e drogas como estamos acostumados a encontrar nas leituras por aí. No entanto, apesar da seriedade que isso aparenta, nosso protagonista ainda precisa lidar com o próprio amadurecimento, com as confusões do primeiro amor, e as regras extremamente rígidas dos pais. Ele é leve, assim como a escrita do autor, que aborda temas espinhosos com grande maestria.

O primeiro e mais forte assunto com o qual teremos de lidar nessa história é o racismo e a xenofobia. Enquanto acompanhamos Frank em seu dia-a-dia, vamos enxergando a relação conflituosa que o personagem mantém com os pais, que são abertamente preconceituosos. Logo no início da trama, o protagonista traz a questão como um perigoso iceberg. Ele enxerga, a princípio, as atitudes excludentes e maldosas dos pais como algo relacionado a velhice e a cultura. No entanto, no decorrer dos capítulos, as ações dos pais vão se tornando mais revoltantes e então vemos um Frank passar de envergonhado a indignado.

Se prepare para ler todo tipo de absurdo vindo dos pais de Frank. Eu fiquei verdadeiramente chateada enquanto lia. Os diálogos ácidos e cheios de todo tipo de estereótipos negativos, trazem uma sensação de impotência. Quando Frank se cala diante de tanto lixo tóxico, você só consegue pensar no quanto ele é covarde. Os argumentos dele se tornam inválidos diante da sua indignação, no entanto fazem pensar. Ele próprio se questiona. “Eles são meus pais, eles já estão velhos, eles não vão me dar ouvidos, minha fala não fará diferença alguma.” Poderíamos ir mais além, “mas ele é meu chefe, mas ela é minha melhor amiga, mas ele é um cliente em potencial, mas eu estou em um local público, vou parecer um militante chato”. E nessas desculpas muitos se calam, muitos se omitem, e as injustiças permanecem. E é exatamente isso que Frank aborda em certo momento. Q, o melhor amigo de Frank, é um jovem inteligente e muito educado. E é negro. Q parece ser o único negro que não recebe ofensas gratuitas dos pais de Frank. Após escutar mais uma saraiva de absurdos, Frank se questiona, será que se os pais falassem da mesma forma de Q, ele teria coragem para defendê-lo?

Franzo a testa. Por que não repreendi meus pais toda vez que desfiaram suas teorias racistas contra negros, apoiadas por suas estatísticas inventadas? Porque meus pais são a mão que recebi, a mão com a qual estou preso. Gostaria de poder dizer alguma coisa. (…) Mas tenho medo de repreendê-los, pra ser totalmente sincero. Porque um jovem tem que pertencer a algum lugar.

A xenofobia também se torna presente a partir do momento em que os olhos amendoados de Frank se tornam motivo suficiente para que todos achem que ele saiba falar coreano, que ele conheça sobre a cultura e sobre qualquer outro fato genuinamente asiático. Ele se sente insuficiente, deslocado, desconfortável. Se você tiver um olhar mais atento perceberá que aquele seu amigo asiático talvez nem goste de ser chamado de “japa”. Afinal a Ásia é um continente imenso e rico em diversidade e nem precisa ser geógrafo para saber que não existe apenas o Japão por lá. Quando os pais de Brit começam a questionar Frank sobre suas origens, ela os alfineta, perguntando se eles também são cobrados por suas origens sempre que chegam em algum lugar novo. É um tapa na cara.

Talvez você pense que o livro é forçado na militância, mas o grande segredo é o quanto a escrita de David Yoon é pacífica e sem grandes pretensões. No meio de tantos assuntos sérios, encontramos um romance doce e delicado, mesclado com episódios cheios de confusões e novas descobertas. Dá até aquele frio na barriga. As idas e vindas são dramáticas, porém realistas. Frank, como já dito anteriormente, não faz o tipo babaca, mas isso não o isenta de fazer péssimas escolhas em momentos errados. Outro assunto abordado é a relação fria e distante que o protagonista mantém com os pais e a irmã. Tantas diferenças os separam. Frank sente que os pais ainda estão na Coréia, enquanto ele está nos EUA, tamanha é a distância entre eles.

Não é fácil quebrar certos muros e barreiras, então é lindo e surpreendente acompanhar essa jornada. O final é agridoce. Triste, bonito e cheio de todo tipo de surpresas. Cresci e amadureci ao lado de Frank enquanto lia essa história, por isso é com carinho que encerro essa resenha dizendo: Leiam Frank e o Amor.

  • Frankly in Love
  • Autor: David Yoon
  • Tradução: Lígia Azevedo
  • Ano: 2019
  • Editora: Seguinte
  • Páginas: 400
  • Amazon

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