Em um mundo envolto por um oceano de areia, no meio de disputas políticas, seres misteriosos, desilusões amorosas e perdas significativas, uma mulher redescobre o significado do amor enquanto sua vida, seus valores e conceitos mudam gradativamente para algo que ela jamais imaginava ser possível.

Numa atmosfera que mescla o bom e velho faroeste com a tendência steampunk, Nikelen Witter irá transportar o leitor para o nosso próprio planeta em um futuro distante ou realidade alternativa onde aquilo que somos, acreditamos e fazemos nunca foi tão importante para garantir a sobrevivência da nossa espécie. Muito mais que sapatos cheios de areia, você estará às portas do Abismo prestes a descobrir um dos maiores segredos do globo.

Apesar do início belicoso entre os dois lados da mesma balança na cidade de Alva Drão, na Tríplice República, logo a história passa a ter foco pleno em Elissa Faina Till, personagem de maior destaque e que parece atrair toda espécie de problemas ao mesmo passo que cativa praticamente todos a sua volta. Eis que a garota está às vésperas de seu casamento com Larius Drey, um político em forte ascensão e com um desejo de poder imenso, quando tudo parece ir por água a baixo.

Aparentemente, apesar do mundo ser uma planície desértica desde que seus habitantes tenham memória, a areia agora carrega um novo objetivo e com isso um perigo ainda maior que as disputas políticas em uma sociedade que mais parece ser governada por uma espécie de coronelismo que qualquer tipo de democracia básica. Lutando contra seu próprio desespero e perda, Elissa conhece uma garotinha que aparenta saber de tudo que se passa no coração da jovem e do que está por vir, e do mesmo jeito que ela aparece, some sem deixar rastros, mas não antes de mexer com Elissa e a fazer questionar ainda mais tudo que sente e conhece.

Com a Tríplice República em meio à uma guerra política, Elissa, que decide seguir os passos de seu pai e ser curandeira, segue com a vida junto à sua família até o dia que conhece Seth. Misterioso, com ares de bad boy e braço cibernético, ele vira o mundo de Elissa de cabeça para baixo assim que se conhecem. O que poderia muito bem ser um clichê literário – afinal, a garota conhece o garoto, o odeia em um instante e no seguinte passa a sentir atração física por ele que resulta em redenção, afeto, carinho e até amor – acaba por ser apenas um meio para que no final Elissa se redescubra e passe a amar a si mesma.

Nunca amara tão profundamente e nunca estivera tão completa apenas por ser Elissa. O pode de mandar em si mesma, fazer o que quisesse, planejar ações, liderar outras pessoas. Estava romanticamente imersa na própria existência.

A escrita de Nikelen e o modo como ela compõe a história torna lento o processo de fisgar o leitor, por ser uma leitura que traz muitos problemas de caráter humano – o planeta morrendo, intrigas políticas, violência extrema, elementos sobrenaturais, desilusão amorosa e busca por autoconhecimento – e um excessivo deslumbramento pela personagem de Elissa. Contudo, a ideia central do livro é bastante interessante e levanta questionamentos pertinentes para nossa própria realidade: até quando iremos nos autosabotar?

Com elementos e seres mágicos inspirados em lendas e grandes nomes literários, a autora é bastante fã do universo criado por J. K. Rowling, por exemplo, a história parece seguir por dois caminhos que ora se entrelaçam ora se distanciam. De um lado temos uma busca liderada por Halan Solano pela cabeça de Elissa em um território da Tríplice República que parece sem lei, governada por ninguém onde o mais forte vive outro dia e todo tipo de brutalidade é forçada aos mais indefesos. Do outro temos a jornada de Elissa e seus companheiros para o Abismo, espécie de canyon nos limites do país, onde esperam encontrar a cura para o planeta que definha cada vez mais com as tempestades de areia que corroem e matam tudo que veem pela frente.

Apesar da personagem ter muito destaque durante toda a história, de todos ou a amarem ou quererem matá-la, Elissa não cativa e por muitas vezes cansa; sua irmã, Teodora, por outro lado, apresenta uma persona muito mais interessante com seu jeito retraído de cientista maluca que poderia ter sido mais aproveitado durante a trama que, apesar de ter uma ideia e elementos fantásticos, parece não ter sido trabalhada o bastante e alguns destes elementos que deveriam tornar a história única acabaram por se encontrar em segundo plano e servindo como enfeite apenas.

Gostaria de ter visto mais do steampunk que foi prometido além do pouco que apareceu na história, frotas de dirigíveis, membros mecânicos e equipamentos laboratoriais; também penso que se outros personagens mais interessantes, Seth, Teodora e a garotinha misteriosa, por exemplo, tivessem maior destaque, talvez assim a trama alcançasse maior significado e outras proporções.

No entanto, a leitura foi bastante interessante e divertida em vários pontos. Me transportou para um mundo onde, apesar de tudo se mostrar contra, alguns poucos e bravos humanos ainda tinham a decência de fazer o certo não importasse o quão inalcançável pudesse parecer.

A gente nunca sabe para onde o tempo vai. Andamos no escuro. Como cegos. Não vemos as pedras, os buracos ou quando o caminho acaba.

Uma fantasia/distopia que mescla as guerras políticas d’As Crônicas de Gelo e Fogo com o coronelismo brasileiro em pleno deserto do Saara. Apesar das minhas ressalvas, vale a pena ficar de olho nos escritos da Nikelen e ver quais histórias ela irá gerar além desta que diverte e instiga na medida certa nossos ideais de certo e errado, de que ser diferente não deveria vir antes do ser humano, de que temos, por obrigação, que cuidar do nosso planeta enquanto não for tarde demais e de que não devemos negar nosso eu verdadeiro por razões escusas.

  • Viajantes do Abismo
  • Autor: Nikelen Witter
  • Tradução: -
  • Ano: 2019
  • Editora: Avec
  • Páginas: 304
  • Amazon

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13 Comentários

  • Toby Stephens
    23 novembro, 2020

    Nossa, me abraça! Eu achei a Elissa (e a narrativa de uma maneira geral) muito cansativa, chata. Teodora, ahh essa eu leria um livro inteiro com facilidade.

  • Ycaro Santana
    30 junho, 2020

    Gostei da premissa inicial do livro, o oceano de areia me remeteu logo à A rebelde do deserto e logo fiquei curioso, mesmo identificando as grandes diferenças nas propostas. Viajantes do abismo é mais um livro que entra na questão do gênero que não leio muito, mas o que mais me incomodou desta vez foi o fato da personalidade da protagonista ser tão invisível, lembro de livros dessa mesma forma e de ter detestado.

  • ELIZETE SILVA
    30 junho, 2020

    Olá! Achei a moça da capa bem parecida com a escritora (será que foi intencional?), e por em capa, achei essa bonita e bem chamativa, o enredo tem muitos elementos que me atraem, e por isso, apesar das ressalvas, fiquei curiosa para conferir.

  • Ana Paula Moreira
    27 junho, 2020

    Curto quando se trata de algo diferente como mundos alternativos, planetas e tal. Qualquer coisa que seja diferente do que vivemos. Mas leitura cansativa não da, é triste saber que a autora não soube destacar bem a personagem central. Por mais interessante que a ideia da história pareça, acho que demorarei mais um tempinho para ler esse livro.

  • Aline Teixeira
    25 junho, 2020

    Olá Rafaela!
    Gosto bastante de distopias, porém esse livro não me encantou tanto, mas achei interessante as mensagens que a autora quis passar com a história. A capa é bem legal, e o desenho do tigre atrás está tão rico em detalhes que até parece real. O fato do romance inspirar Elissa a aumentar sua autoestima e cultivar mais o amor próprio me agradou bastante. É uma pena que os personagens secundários não ganharam tanto destaque.
    Beijos

  • Maria Alves
    21 junho, 2020

    Gosto de temas que abordam o futuro, quem sabe acontece de verdade. Interessante como muitos assuntos abordados batem com a nossa realidade, é uma pena a protagonista deixar a desejar, pois acaba nos irritando, gosto muito quando elas nos conquistam, assim fica mais fácil torcer por elas.

  • Eliane De Jesus
    20 junho, 2020

    ola
    confesso que esse genero naõ me atrai muito
    a estoria me pareceu lenta e um pouco confusa,e é complicado quando a protagonista não cativa ,fica dificil se conectar ao livro

  • Luis Carlos
    17 junho, 2020

    Primeiramente, gostaria de falar que amo distopia!! Ainda não conhecia essa, mas pela capa logo me interessou. Lendo sua resenha sobre a história, principalmente sobre o lance político, fiquei mais interessado ainda. Além disso, eu gosto mais ainda quando a protagonista é uma mulher. Os temas que o livro aborda também são ótimos!

  • rudynalvacorreiasoares
    12 junho, 2020

    Rafaela!
    O que mais me chama atenção nesse estilo faroeste/steampunk é justamente as críticas socias descritas e as formas como a população envolvida, tenta descobrir uma forma de superá-la.
    Uma pena o fato a principal protagonista não ter aquele carisma que conquista o leitor e tornar a leitura um tanto cansativa.
    cheirinhos
    Rudy

  • Alison Teixeira
    09 junho, 2020

    Olá Rafaela!
    É inegável que autora fez uma mistura interessante de elementos que resultou em uma trama original e que nos introduz em um universo complexo e instigante. Mas essa complexidade toda, somada a todos os temas que Witter aborda, parece deixar a leitura pouco fluída.
    Mas o elemento sobrenatural torna impossível não ficar com vontade de continuar, mesmo que a protagonista não ajude muito, né? E eu simplesmente adoro intriga política e estratégia, outro ponto positivo para a trama, que ainda conta com essa capa IMPECÁVEL.
    A autora é muito criativa, e precisa ganhar mais reconhecimento. Espero conhecer sua escrita em breve.
    Beijos.

  • Gislaine Lopes
    09 junho, 2020

    Oi Rafaela,
    Uma mistura de elementos, temáticas e gêneros, foi isso que senti ao começar a ler essa resenha. Vou te confessar que no início não estava entendo qual era a ideia de Viajantes do Abismo, mas conforme foi apresentando a história me vi um pouco curiosa pela obra de Nikelen Witter.
    Uma personagem feita a perfeição para cativar, mas que não atinge este objetivo. Neste ponto, acho que entendi a proposta da autora, mas se considerarmos qual o objetivo da trama seria bem mais interessante alguém que fugisse disso. E pela forma que você descreve Teodora, até eu, mesmo não lendo o livro, fiquei mais interessada em sua personalidade. Nunca li um livro Steampunk, mas da forma que imagino a ambientação para este gênero eu esperaria que Viajantes do Abismo a explorasse ao máximo. Ao final achei uma boa indicação. Não seria o primeiro livro do gênero que eu iria atrás para ler, mas acho que seria interessante dar uma chance a escrita da autora.

  • Amanda Almeida
    09 junho, 2020

    Confesso que ao todo não é meu tipo de livro, mas adoro esse clichê do bad boy e de se odiarem no começo da relação. Sempre existiram esses livros sobre realidade alternativa, mas só agora estão fazendo descobertas aqui na vida real e parece que estão tendo livros assim aos montes, que medo do que nos espera de verdade hahah! Amei o primeiro trecho que você escolheu para retirar do livro, principalmente pelo fato dela ter se redescoberto e se visto autossuficiente.

    Beijos,
    Amanda Almeida

  • Angela Gabriel
    09 junho, 2020

    Eu admito que ainda não tinha visto ou lido nada sobre este livro e não sei ao certo o que pensar até o momento. Parece o tipo de história que tinha tudo para ter funcionado melhor, mas que o autor deixou o enredo se perder. Prometendo uma coisa e entregando outra totalmente diferente.
    Confesso que não senti vontade ler não..rs
    Beijo