Em Aprendendo a Cair, de Mikaël Ross, conheceremos um jovem com necessidades especiais que busca o seu lugar no mundo. Noel vê seu mundo desmoronar quando a mãe, repentinamente acaba sofrendo um acidente. Seu mundo certinho, vira de cabeça pra baixo quando um homem estranho de bigode lhe diz que ele não pode morar sozinho, que agora ele terá que se mudar para um lugar completamente novo e bem longe de sua casa. Mas ele quer ficar em sua casa, um local seguro onde sempre viveu, mas ele não tem escolha: ele terá que obedecer.

É assim que Noel para em um centro de cuidados chamado Neuerkerode, onde há outras pessoas assim como ele. Ele só tem uma promessa, de que este local é diferente, que todos lá teriam seu próprio espaço e que Noel logo ficaria bem. É neste contexto que conheceremos Noel, em sua primeira jornada sozinho, mas ao mesmo tempo ao lado de tantas outras pessoas, sem a proteção da mãe que sempre o protegeu.

Através das novas vivências de Noel, é possível percebe-lo como parte de algo (e ele também se percebe assim), com vontade de ser aceito e suas relações com os outros moradores do centro. Aos poucos Noel vai lidando com suas dúvidas e inseguranças, a cada quadrinho podemos aprender junto com o personagem, com cada pequena história que o Mikaël Ross vai nos apresentando, desde a sua paixonite por Penélope, sua amizade com Alice, às suas aulas de judô.

A narrativa segue o mesmo ritmo, com cada capítulo ilustrando uma nova experiência de Noel, com exceção de alguns flashbacks e os momentos em que a representação da mãe de Noel é presente, mesmo que não fisicamente. Achei estes trechos de uma delicadeza incrível e de sensibilidade sem igual do autor. Além disso a graphic novel é completa, o traço de Mikaël é muito interessante, bem expressivo, destacando vários dos sentimentos tratados através das cores. Foi o primeiro quadrinho do autor que li, mas do qual já me encantei, pois além de ser linda, nos apresenta um tópico pouco discutido entre os quadrinhos.

A leitura acaba sendo muito pertinente para que nós, entendamos como funciona o dia a dia de um centro como Neuerkerode, que já tem um diferencial e a vida dessas pessoas por muitas vezes ignoradas pela sociedade.

A obra foi encomendada pela comunidade de Neuerkerode, para celebrar os 150 anos da fundação residente na Alemanha. Assim Mikaël Ross embarcou por 2 anos no cotidiano dessas pessoas, nos mostrando um retrato pra lá de realista da rotina do local e todas duas facetas, onde verdade, otimismo e também angustias são compartilhadas. O artista aprendeu cada detalhe e particularidades de todos os habitantes de Neuerkerode, criando assim uma obra que diverte, informa e emociona na mesma medida. Apesar disso, os personagens não são inspirados por ninguém em específico.

A comunidade Neuerkerode oferece uma vida inclusiva a pessoas com ou sem necessidades especiais, é um espaço onde você compartilha e vivencia as particularidades de pessoas deficientes intelectuais do modo são. Atualmente o centro conta com mais de 800 cidadãos e é uma grande comunidade que busca acima de qualquer coisa realização pessoal, condizendo com as capacidades de deus integrantes.

Aprendendo a Cair foi o vencedor do Max und Moritz, o grande prêmio alemão dos quadrinhos. Fazendo jus a uma história forte e reflexiva, que mostra a verdadeira visão do mundo das pessoas com deficiência da forma mais autêntica e genuína possível. Por muitas vezes estas pessoas passam a ser invisíveis para a sociedade em geral, mas aqui são protagonistas e possuem voz para falarem sobre si, contarem suas próprias histórias e conquistas. Essa é uma história que fala sobre recomeços e sobre Noel, que precisa aprender a cair, para não se machucar.

  • Der Umfall
  • Autor: Mikaël Ross
  • Tradução: Renata Silveira
  • Ano: 2020
  • Editora: Nemo
  • Páginas: 128
  • Amazon

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8 Comentários

  • Ana I. J. Mercury
    01 dezembro, 2020

    Oii,
    Que HQ fofa!
    Parece ser uma história emocionante e que nos faz pensar muito sobre inclusão e com bastante sensibilidade.
    Em breve lerei.
    Bjs

  • ELIZETE SILVA
    27 novembro, 2020

    Olá! Nossa parece ser uma leitura emocionante, bonita, reconfortante e que tem muito a nos ensinar, me trouxe lágrimas aos olhos só de ler a resenha, imagina eu lendo essa história, que apesar de ficção parece retratar de maneira bastante fiel a realidade dessas pessoas, amei a indicação.

  • Fátima Menezes
    23 novembro, 2020

    Vish. Não sei se gostaria tanto da leitura porque provavelmente iria chorar, mas é um tema muito importante. Que bom que esse livro existe.

  • Bruna Prata
    21 novembro, 2020

    Só pelo pouco que li pelas imagens, já me senti extremamente tocada com a delicadeza e fofura!
    Pelo período atual que vivemos, é tão reconfortante o espaço que cresce para debatermos e analisarmos algo que atue na representatividade, além de que, seja inclusivo. Sempre penso o qual importante isso deve significar para aqueles que conseguem se visualizar nesse meio.
    Achei a HQ muito interessante. Inclusive, se eu não a visse sendo recomendada, provavelmente, ela não entraria no meu radar tão rapidamente (talvez nunca).

  • rudynalvacorreiasoares
    21 novembro, 2020

    Joi!
    É importante para alguém que tem dificuldades psicológicas, encontrar um lugar que os acolha e que os faça sentir que não os únicos com suas deficiências, além de todo amor que recebem na insituição e da mãe.
    O livro deve ser enriquecedor.
    cheirinhos
    Rudy

  • Eliane De Jesus
    20 novembro, 2020

    ola
    eu já tinha visto o titulo desse livro em algum lugar mas não sabia do que se tratava ,
    desconhecia a existencia desse lugar e deve ser bem emocionante esse livro visto que o autor passou 2 anos no lugar para conhecer a todos os habitantes ,conhecer a rotina ,os anseios sonhos daquela comunidade .

  • aryela_souza
    20 novembro, 2020

    Ai, já vi que é daquelas hq q te emociona de tão delicada que vai ser. Já tinha ficado de olho nessa hq desde do lançamento e espero le-la em breve.

  • Bruna Lago
    19 novembro, 2020

    simm, já vi a resenha desse livro em outro blog amigo e fiquei feliz de ver por aqui também, acabou confirmando tudo que eu tinha visto e os sentimentos voltaram. Acho que livros que trazem representatividade, seja ela qual for, é sempre muito delicado, importante, suave. Esse livro consegue mostrar isso de uma forma maravilhosa! 5 estrelas é lindo de se ver 🙂