Naledi Smith, mal tem tempo para respirar. Órfã, aprendeu desde muito cedo que só pode confiar em si mesma, contar com sua determinação e esforço para chegar a qualquer lugar. E vontade não falta a ela. Dividida entre a pós-graduação, o laboratório onde trabalha como epidemiologista e o trabalho de garçonete, Naledi se dobra e desdobra em muitas versões de si mesma todos os dias a fim de dar conta. E como se não bastasse todos os problemas do dia a dia, ela ainda está sendo perturbada constantemente com spam, incansáveis e-mails de alguém que acha engraçado tentar enganá-la, afirmando que ela seria a “noiva” perdida de um príncipe. Como se ela acreditasse em contos de fadas. Obviamente que ela não irá cair nesse golpe.

Se sentindo cada vez mais pressionado por seus pais e reino, Thabiso, único herdeiro de Thesolo, está determinado a desvendar o que aconteceu com sua noiva fujona. Ele quer a reencontrar, ainda nutre esperanças de que ela irá aparecer e reivindicar seu lugar, mesmo que muitos digam que ela é uma traidora. O problema, é que ele só conseguiu um endereço de e-mail, e o mesmo nunca é respondido. O que o leva a pensar, que talvez a única forma de a encontrar, seja viajar para o país no qual ela mora agora, só que não a espaço em sua agenda para isso.

“(…) porque a empolgação era só um nome diferente para expectativa, e a expectativa era o caminho mais rápido para a decepção.”

Trabalho, preocupações, boletos para pagar, uma melhor amiga problemática, Naledi está à beira de um colapso nervoso, o mundo parece estar para cair sobre sua cabeça, é quando Jamal aparece. O jovem garçom que irá dividir a responsabilidade com ela, encantador, gentil e muito atrapalhado, acaba se tornando uma nova preocupação para ela, só que ao contrário de todo o resto, este a fascina. Ele é diferente dos demais homens que já conheceu, possuiu certa determinação, uma arrogância charmosa e ainda que tente muito, não parece se encaixar nos moldes de seu currículo, mas ele não seria o primeiro a mentir sobre suas habilidades. Ao final do turno, Naledi tinha certeza que nunca mais o veria, mas por coincidência ou não, eles acabam tendo uma segunda chance, quem sabe agora, eles possam se tornar… amigos.

 

Teoricamente Princesa chegou em um momento muito necessário e traz à tona a necessidade de termos sim, mais representatividade na literatura. Aqui conhecemos Naledi, mulher preta, moradora de Nova York, inteligente, focada, muito certa do que quer e com um coração generoso, o problema é que ela sabe o tamanho da luta que precisa enfrentar por ser mulher e preta, em um ambiente que ainda é mais dominado pelos homens, ou seja, ela precisa trabalhar o dobro e se reafirmar a todo instante. O que não impede que ela seja exposta a situações de machismo. Ainda temos o fato de que ela vem de uma infância dolorosa, marcada pela rejeição e inseguranças. Já Thabiso cresceu em um meio abastado, é um príncipe, e ainda que tome decisões controversas no meio do caminho, se revela um homem bom, justo, preocupado com o bem-estar do seu povo, buscando formas de driblar o sistema capitalista e fazer um novo governo. E ainda farei um adendo ao mencionar a assistente de Thabiso que é uma mulher poderosa, e que é LGBT.

(…) Se tem uma coisa útil que eu aprendi na vida é que não posso fazer alguém se importar comigo. Mas posso ser melhor em deixar entrar as pessoas que se importam.

Alyssa Cole foi brilhante ao construir um romance que entrega muito mais do que apenas “romance”, claro que temos aqui um conto de fadas moderno, uma história de amor, de duas pessoas que se reencontram, que precisam se redescobrir, e juntos constroem um relacionamento que irá precisar enfrentar muitos obstáculos – social, perdão, mentiras, encontros e desencontros. Porém, mais que isso, a autora nos apresenta uma história de caráter político, ainda que não se aprofunde no tema, ela promove discussões sobre o capitalismo, a busca por lucros acima de tudo e todos, sem de fato se importar com o quanto isso pode custar para a humanidade. Outros pontos importantes que autora levanta, são a questão da desigualdade social e a necessidade de se investir em ciência. Como mencionei no início, Naledi é uma epidemiologista e em um determinado momento da trama, irá precisar de seus conhecimentos – o que conversa demais conosco neste momento de pandemia. E dá aquela cutucada para quem ainda insiste em dizer que ciência não deve ser uma prioridade.

Eu gostei muito da leitura, alguns pequenos detalhes até me incomodaram, ou me deixaram questionando se seria realmente crível para a narrativa, mas confesso que diante a tudo que a leitura promove – protagonismo preto, representatividade, força da mulher, cenário político-social e claro, um romance interessante que nos faz torcer por um final feliz -, eu optei por simplesmente não dar ouvidos a eles e deixar que tudo o que foi bom brilhasse mais.

Algo que ainda gostaria de mencionar, é que foi impossível não me lembrar do filme Um Príncipe em Nova York, que é um filme que eu não canso de assistir, que nunca enjoo, e que se você já assistiu e gostou, provavelmente irá amar a leitura de Teoricamente Princesa também.

  • A Princess in Theory
  • Autor: Alyssa Cole
  • Tradução: Fernanda Cosenza
  • Ano: 2020
  • Editora: Planeta
  • Páginas: 304
  • Amazon

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