Leigh Collier está diante de um dos casos mais desafiadores da sua extensa carreira como advogada criminalista, precisará defender um jovem acusado de estupro, o caso pode definir a vida dele, já que existem outras acusações esperando uma condenação para que ele seja colocado no banco dos réus novamente, criando um modus operandi para seus crimes sexuais. O acusado escolheu, ou melhor, exigiu, que Leigh fosse a advogada a lhe representar e ela nem faz ideia do motivo.

O grande problema nessa história passa longe do caráter ou da integridade dela como advogada, a Dra. Collier está acostumada a defender bandidos, e não se sente culpada por isso, pelo contrário, acredita que se o Estado não conseguiu colocar ele atrás das grades a culpa é do mal trabalho feito pelo promotor, e não mérito seu, uma forma interessante de se pensar e que já começa a mostrar um pouco da imensa quantidade de questões psicológicas inseridas nessa história. A grande questão de Leigh é que ela foi abusada na infância, não só ela como sua irmã também, na época dos fatos elas deram o jeito delas na situação, mas isso talvez irá acompanhá-las para o resto de suas vidas.


Eu sou mega fã de Karin Slaughter, fã daqueles de carteirinha mesmo, tenho todos livros da escritora, é um dos nomes que ocupa mais espaço na minha prateleira e quando tem lançamento eu vou correndo agarrar, mas dessa vez… dessa vez ela extrapolou, o que esta incrível mulher faz em Falsa Testemunha é perto da perfeição.

Slaughter em inglês significa “massacre”, e é impossível que exista um sobrenome que explique melhor o estilo literário de uma escritora como este para Karin, seus livros são repletos de sangue, com mortes a todo momento, cheios de cenas fortíssimas, que causam um impacto repugnante no leitor. E eu amo isso!  Todos os livros dela tem a capacidade de tirar nosso fôlego, de deixar o leitor com medo de virar a página, pois pode ser a morte do protagonista ou uma cena ainda mais horrenda envolvendo alguém indefeso, porém, em Falsa Testemunha, ela eleva esse patamar, ela simplesmente começa o livro com uma cena fortíssima, e você passa a pensar: “Meu deus, o que pode vir depois disso? O que ela vai colocar nessa trama para explicar essa cena? Qual a importância de ela me contar algo tão enojante assim, logo no primeiro capítulo?”. E ela responde cada uma das questões durante as mais de 400 páginas de livro.

A pedofilia não é a única parte que poder ativar gatilhos para algum leitor, nesse livro Karin assusta de todas as formas imagináveis, há abuso de drogas, há violência sexual e até uma ampla presença da Covid-19 em suas páginas, já que ela faz questão de inserir a doença que assolou o mundo no seu enredo. Deixando tudo mais crível e realista ainda, a personagem principal, por exemplo, tem a vida muito influenciada pela doença, seja por mudanças na forma como a lei agiu na época, já que alguns benefícios foram concedidos a acusados por causa da pandemia, bem como o fato de diversos processos terem seus prazos estendidos.

E as discussões propostas pelo livro ficam longe de serem apenas sobre o cenário mundial, Karin coloca detalhes jurídicos na história, que eu só tinha visto em livros de John Grisham, detalhes estes que fazem a história ficar ainda mais instigante, e contribuem para o ponto que eu achei mais legal da história, mas que também é o mais delicado: a personalidade e o caráter da protagonista.

Porque escolhi este como o ponto mais interessante? Pelo simples fato de que eu odiei Leigh durante boa parte da história, não entrava na minha cabeça como uma advogada iria defender um cara que teria estuprado outras mulheres, sendo que ela mesma tinha sofrido com isso, como ela conseguiria ser tão fria para levar a vida daquela forma? E aí começam os questionamentos… ela deveria se sentir obrigada a não aceitar este caso, já que ela tem uma responsabilidade social com outras mulheres? Ela deveria atendê-lo, mas sem fazer esforço, provocando a condenação do seu cliente? Mas o principal de tudo foi: este livro deveria existir?

Porque essa pergunta? Porque em muitos momentos da história senti que se alguma mulher que tivesse passado por um episódio de abuso o lesse, ficaria com a clara impressão de que ela é a culpada dos fatos, já que Leigh trabalha junto com seus pares para colocar a vítima que acusa seu cliente no papel de louca e mentirosa, o livro atuava no seu início completamente desencorajador para a mulher abusada, e isso estava me assustando muito, mas…

Karin Slaughter consegue mudar todos estes detalhes, todas as impressões ligadas ao começo do livro e o leitor vai se sentindo aliviado, ao mesmo tempo em que se sente cada vez mais assustado, a escritora faz algo que eu vi pouquíssimas vezes na literatura (e nunca de uma maneira tão bem feita), ela altera o mote principal do enredo da história, seu roteiro vira de cabeça para baixo durante a leitura, e faz isso de uma maneira inimaginavelmente perfeita, sem deixar nenhuma aresta da história mal resolvida, além de provocar um outro ponto fabuloso da literatura: o livro se torna imprevisível!

O final da obra é simplesmente perfeito e ao mesmo tempo inimaginável, surpreendente de um jeito que me chocou literalmente da primeira a última linha, uma história fabulosa, muito bem escrita, que eleva o nível de uma escritora que já era tida como uma das melhores da atualidade, mas que agora dá um salto a mais, sobe mais um degrau e se coloca no topo, como a autora mais capacitada da atualidade, minha ansiedade para sua próxima história já é enorme.

E se tudo isso já não fosse perfeito, o livro se encerra com uma mensagem muito interessante da autora, que fala sobre como foi escrever em meio à pandemia e sobre o motivo de ter decidido inserir a questão da doença no meio do seu enredo. Leiam Karin “Massacre”, mas saibam que precisa ter estômago, precisa ter cautela com os incontáveis gatilhos presentes em seus livros, mas nenhum deles é colocado gratuitamente ali, o que torna seus livros incomparáveis e sua literatura única.

  • False Witness
  • Autor: Karin Slaughter
  • Tradução: Falsa Testemunha
  • Ano: 2021
  • Editora: Harper Collins
  • Páginas: 432
  • Amazon

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