Dica gringa #3: Dolores Claiborne

17 fev, 2022 Por Clara Vieira

Dolores Claiborne” é o nome original do livro de Stephen King publicado em 1992 e traduzido para o Brasil com o título de Eclipse Total pela editora Francisco Alves. Apesar de já ter sido traduzido para língua portuguesa, sua edição brasileira tornou-se rara e, na data de escrita deste post, é possível de ser comprada em sebos e outras formas de venda de livros usados por valores que variam de 150 a 300 reais. Assim, a maneira que encontrei de entrar em contato com essa história foi através de seu original em inglês, que adquiri em uma viagem há muitos anos. É sobre esta versão que vou comentar neste post. 

“Dolores Claiborne” é narrado em primeira pessoa por aquela que intitula o livro. Assim que a história começa entendemos que ela está em uma delegacia de polícia dando seu testemunho a respeito da morte da senhora que a empregava, Vera Donovan. Dolores, literalmente nas primeiras páginas do livro, afirma não ter culpa nenhuma na morte de Vera, mas que sim, havia matado seu marido muitas décadas antes. A narrativa então transcorre inteiramente como o testemunho dela. 

Essa sinopse me atraiu profundamente pelo mistério que reserva. Sabemos quem morreu e, em um dos casos, quem matou, mas os porquês permanecem enquanto fonte de dúvida, devendo ser desvendados ao longo de toda a narrativa, em uma maneira pouco comum de construir um livro de suspense. Aliás, esta é uma ótima notícia para aqueles que desejam se aventurar nos universos construídos por Stephen King, mas que tem medo de livros de terror ou preferem evitá-los: este é um dos livros do autor que foge desse gênero, tratando-se de um suspense psicológico.

Isso não significa que King foge de elementos fantásticos completamente: eles estão presentes em uma brincadeira criativa com a narrativa em primeira pessoa e com a noção de ponto de vista, assim como em sonhos, fantasias, patologias psicológicas. Ainda respeitando o relato em primeira pessoa, King mantém em sua escrita traços de oralidade, tais como expressões, misturas de tempos verbais, gírias, dentre outros, que se tornam um dos traços excelentes deste livro.

Fica claro, portanto, que a qualidade narrativa é um dos traços que faz com que eu recomende fortemente este livro. Não é o único, no entanto. Em sua narrativa, King aborda temas que trazem reflexões profundas: como mulheres podem vir a reagir em situações de violência de gênero; o quanto a sociedade, em diferentes medidas, corrobora essas violências; o quanto as possíveis respostas frente à violência afetam a mulher em questão; quais as consequências das respostas frente à violência. Não se trata aqui de tentar justificar atitudes de qualquer personagem em específico, já que estas são sim muito questionáveis, mas de promover uma discussão acerca de contextos sociais mais amplos. 

Outros temas são abordados, além dos já especificados, e aproveito aqui o momento para deixar um aviso acerca de potenciais gatilhos: os já mencionados assassinato, morte, violência contra a mulher, mas também violência contra menores de idade. São tratadas também relações familiares, principalmente as relações entre mães e filhos, sendo esse um tema essencial para o desenvolvimento da história e abordado de maneira emocionante.

Por fim, acredito ser interessante deixar aqui algumas curiosidades: Dolores Claiborne tem um diálogo direto com o livro Jogo Perigoso, publicado no mesmo ano, compondo o universo compartilhado elaborado por Stephen King em seus livros. Caso qualquer pessoa tenha ficado preocupada, particularmente, eu não diria que Dolores Claiborne dá qualquer tipo de spoiler deste outro livro, mas acredito que talvez sejam livros interessantes de serem lidos um em sequência do outro.

Ainda assim, a história de Dolores Claiborne se fecha no fim do livro, que pode ser lido como um livro único. Outra curiosidade acerca desta narrativa trata de que foi feito um filme a partir de Dolores Claiborne, protagonizado pela atriz Kathy Bates, lançado em 1995, e batizado aqui no Brasil como Eclipse Total, a modo da primeira e até hoje única tradução do livro. Trata-se do segundo filme inspirado em um livro de Stephen King protagonizado por Bates, sendo o primeiro Misery – Louca Obsessão (1992), que lhe rendeu um Oscar de melhor atriz.

“Dolores Claiborne” foi uma leitura que me aproximou de Stephen King e me fez querer ler outros livros do autor. Acredito ser uma obra que merecia ser lida com maior facilidade pelo público brasileiro, até mesmo em grupos de leitura que pudessem debater suas temáticas, e, com isso, gerar reflexões e questionamentos acerca de seus temas. Quem sabe a Suma de Letras poderia publicar uma versão deste livro raro na Biblioteca Stephen King? Fica aqui um pedido nada silencioso.

  • Dolores Claiborne
  • Autor: Stephen King
  • Tradução: -
  • Ano: 1992
  • Editora: Signet Book
  • Páginas: 384
  • Amazon

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