Seong Gi-Hun é um homem egoísta, um pai medíocre e um filho cretino. Desempregado e viciado em apostas, ele se vê completamente destituído de humanidade. Fracasso após fracasso, decepção após decepção. É assim que os outros o veem, é assim que ele mesmo se vê. Ele perdeu quase tudo o que lhe era mais precioso, o trabalho, o casamento, a filha e agora está prestes a perder a mãe. Para alguém com tantas perdas, ele já não vê esperanças na vida, e parece que gastou a última sorte que tinha em uma casa de apostas.

Com a filha indo embora do país, a mãe doente e as constantes ameaças dos agiotas, nada parece mais atraente que a proposta de um desconhecido. Pode ser uma benção, pode ser uma maldição, mas o prêmio é exatamente o que poderia consertar a vida dele: dinheiro. Muito dinheiro. Alguns jogos, um vencedor, dinheiro para uma vida toda. Parece fácil demais, suspeito demais… Mas Seong Gi não tem mais nada a perder e está mais do que disposto a apostar uma última vez. Ele só não sabe ainda que o preço pode acabar sendo a própria vida.

Um prêmio, 456 jogadores, alguns jogos infantis. Tentador, não? E se o prêmio em dinheiro pudesse resolver absolutamente qualquer problema que você tivesse na vida? E se o dinheiro pudesse salvar uma vida? E se o jogo pudesse tirar muitas vidas? E se a vida fosse a sua própria? Quanto vale a sua vida? Seong Gi aceita a proposta que um desconhecido lhe faz no metrô. Ele não conhece as regras, não conhece os participantes, não sabe em quais jogos irá competir, mas sabe que se não conseguir o dinheiro, ele vai perder a filha pra sempre, a mãe irá morrer por falta de atendimento médico e os agiotas provavelmente irão vender alguns dos seus órgãos no comércio clandestino. Ele acha que merece ganhar, mas desconhece as histórias igualmente trágicas e tristes dos demais jogadores. Pessoas que mereciam tanto ganhar quanto ele, ou talvez até mais. Pessoas que farão qualquer coisa para ganhar o grande prêmio. Absolutamente qualquer coisa.

Desde que vi o primeiro trailer de Squid Game, ou Round 6, como foi lançado aqui no Brasil, eu soube que esse drama seria perfeito para o Mês de Terror. Pra mim não existe nada mais assustador que a sordidez humana, do que a capacidade de fazer o mal, do que propagar a tortura e vender o sadismo como forma de entretenimento. A série da Netflix entrega exatamente tudo isso e muito mais, em apenas 9 episódios. A essas alturas do campeonato, ou você já assistiu, ou já ouviu falar… Nem que seja um meme, ou uma figurinha do whatsapp. E isso se deve ao grande sucesso que a série alcançou logo no primeiro mês de estreia. E eu, como uma fã dos conteúdos sul coreanos, não podia deixar de vir compartilhar com vocês um pouco da percepção que tive a respeito.

Squid Game reúne um misto de vários outros plots que já vimos por aí, poderíamos arriscar dizer que tem um quê de Jogos Mortais, Jogos Vorazes, ou o famoso Battle Royale. No fundo o enredo ainda quer evidenciar que o instinto de sobrevivência sempre acaba se tornando mais forte, mesmo diante dos valores, da ética, do que é moralmente aceitável. Quando falamos da trama da série coreana, podemos ir um pouco mais além, podemos falar de desigualdade social, de cultura, de política, de machismo e de corrupção. A série começa mostrando a vida miserável de um dos participantes do jogo. Nesse aspecto é possível resgatar um pouco do que já vimos em Parasita, ganhador do Oscar na categoria de Melhor Filme em 2020. Uma casa simples, em uma viela fria, dentro de uma vizinhança precária e deprimente. Esse é o tom mostrado nas primeiras cenas. Inspira pena, inspira indignação.

A forma como a narrativa é construída, focando nos detalhes das vidas dos personagens, serve não apenas para cativar, mas principalmente para gerar empatia. Vemos vidas comuns, em que pessoas com cotidianos cheios de azar e doses de injustiça são massacradas pelo sistema opressor da desigualdade social. O mais forte sempre vence eles dizem, e isso fica nítido na tela. A gente se identifica com aquelas vidas, com aquelas dores, com aquelas frustrações. Um desempregado que vê a mãe morrendo pela falta de atendimento médico, um estrangeiro explorado no trabalho para alimentar a esposa e o filho, uma jovem refugiada que precisa cuidar sozinha do irmão mais novo enquanto tenta resgatar a mãe que ficou presa, um filho que hipotecou tudo o que mãe tinha para saldar uma dívida que o levará a prisão… tantas vidas, tantos sonhos perdidos.

O irônico da série, que não pode passar despercebido, é o quanto os organizadores dos jogos prezam pela democracia e pela justiça. Segundo eles, fora daquelas paredes os participantes já sofrem demais com a desigualdade de oportunidades. Nessa nova e última chance eles poderão mostrar que com as próprias habilidades é possível alcançar resultados diferentes daqueles que obtiveram no mundo real. O que não é levado em consideração é a barreira cultural, educacional, comunicativa. Ou a força física, ou a capacidade de enganar, ou as relações sociais utilizadas para formar grupos e excluir pessoas. Como tornar igual o que não pode ser igualado?

E esse é mais um dos pontos que podemos observar na história, que nem sempre o mais forte vence. Aqui o jogo não é do mais forte, ou do mais inteligente. Talvez sim do mais desesperado, talvez do mais sortudo ou daquele com melhores alianças. As mulheres e os idosos são rejeitados. Ninguém os quer como companheiros de jogo. O valor que eles possuem está totalmente atrelado a utilidade que tem para o time, e isso não parece muito diferente do que é visto na sociedade em nosso dia a dia. É o suspense dessa imprevisibilidade que deixa o enredo ainda mais envolvente.

Em meio ao caos e ao drama dessas vidas, o jogo parece trazer uma esperança necessária. As cores vibrantes dos cenários contrastam com a barbárie que os participantes irão testemunhar. A violência brutal contrasta com a leveza dos jogos infantis. As brincadeiras que outrora trouxeram alegria e formaram boas recordações, agora preenchem o ar com o som dos tiros, os gritos de dor e o sangue que jorra pelo chão. Os produtores da série manipulam nossa percepção sensorial e essa dualidade de emoções se torna mais uma ferramenta para entreter. Nosso lado mais sádico é explorado por meio da competição, nosso lado humano é evocado quando torcemos pelos nossos favoritos, nosso lado vingativo vem a tona quando aqueles que odiamos são eliminados. É uma barbárie sem tamanho, é doentio e a gente simplesmente não consegue parar de assistir.

A cada nova fase, um novo jogo é apresentado e mais competidores são eliminados. A trilha sonora acompanha a progressão das cenas, estimula a tensão. Um enredo se desenvolve paralelamente a trama principal. Um policial busca pelo irmão desaparecido e se infiltra entre os líderes que comandam os jogos e assim o telespectador conhece um outro lado da história. Vemos os bastidores enquanto sofremos pela trama principal. A ansiedade das cenas protagonizadas pelo jovem policial são tão inebriantes quanto os sentimentos que experimentamos ao acompanhar os demais personagens. Os antagonistas da história possuem um desenvolvimento complexo, com histórias obscuras que deixam entrever um passado que entrega mais perguntas que respostas. E talvez apenas nesse ponto a gente encontre um furo. Apesar da genialidade do enredo e condução da história, muitas pontas soltas são deixadas. Poderíamos dizer que seriam o cliffhanger perfeito para uma segunda temporada, caso isso tivesse sido planejado.

Quando vamos dando adeus aos personagens, é como se nossa própria história partisse um pouco com eles. Ficamos órfãos, viúvos, enlutados. O desfecho é agridoce, mas condiz com o restante da jornada. Pode soar injusto, pode causar revolta e indignação, mas após refletir eu acredito que apesar de não encontrar satisfação, não destoou do que já tinha sido apresentado até então. Respeitando o espaço e sem dar nenhum spoiler eu gostaria apenas de finalizar essa crítica dizendo que Squid Game é uma série que merece o sucesso que obteve, e merece ainda mais sua atenção caso você não tenha visto.

Tenho certeza que você poderá enumerar muitos outros pontos importantes na história e que encontrará outras teorias, a partir de uma outra percepção. E essa é grande sacada, pessoas diferentes veem a vida de formas diferentes e respondem de forma diferente aos estímulos que recebem. Assim como os competidores desse jogo insano, andamos pela vida lutando para sobreviver e realizar nossos sonhos. Que possamos encontrar companheiros confiáveis nessa jornada. E que essa história possa marcar vocês, tanto quanto, me marcou.

  • Squid Game
  • Lançamento: 2021
  • Criado por: Hwang Dong-hyuk
  • Com: Lee Jung-jae, Park Hae-soo, Jung Ho-yeon
  • Gênero: Suspense, Sobrevivência, Drama
  • Duração: 9 episódios

rela
ciona
dos

6 livros para seis signos Lançamentos da Netflix para dezembro 6 Motivos para ler Estúpida Promessa 7 Clássicos preferidos dos leitores